Comissão Parlamentar vota amanhã projeto sobre #DRM cc/ #PL118

A Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto tem marcada, para amanhã, a discussão e votação do Projeto de Lei n.o 151/XIII (1.a), do BE – Garante o exercício dos direitos dos utilizadores, consagrados no Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos, que tem como objetivo garantir as utilizações livres (ou exceções) dos cidadãos, mesmo nos casos em que as obras tenham DRM.

O direito de autor é um direito de exclusivo, ou seja, só o autor pode usar a obra e só o autor pode autorizar terceiros a usar a obra. Este é o direito que se dá aos autores, por omissão.

Se o legislador tivesse mantido o direito de autor apenas desta forma, então todos os outros cidadãos perderiam os seus direitos fundamentais e colocar-se-ía em risco a criatividade e inovação.

Se o direito de autor se mantivesse apenas assim, isso significaria que cada vez que um cidadão quisesse usar uma obra para dar uma opinião, fazer uma crítica, corrigir uma informação, ensinar, investigar, etc., esse cidadão teria de encontrar todos os titulares dos direitos dessa obra, contactar todos os titulares, e pedir-lhes permissão para citar e usar a obra. Ora, os titulares dos direitos poderiam negar essa permissão e se o fizessem o cidadão não poderia criticar, opinar, ensinar, etc.

Neste ponto, o legislador decidiu que era preciso equilibrar os direitos dos autores e os direitos dos cidadãos. Para isso, manteve o direito de autor como direito de exclusivo, mas começou a abrir exceções a esse direito, que traduzem ações que os cidadãos podem realizar sem terem de pedir autorização aos titulares dos direitos e, nesse sentido, não podem ser negadas.

Assim, o legislador:

  • criou uma exceção para o cidadão poder utilizar excertos de obras para criticar, discutir, opinar, corrigir de forma a garantir o direito fundamental à liberdade de expressão;
  • criou uma exceção para a utilização de partes ou excertos de obras para fins de ensino e de investigação científica para garantir o direito fundamental à educação;
  • criou uma exceção para a realização de cópias privadas, para garantir o direito fundamental à privacidade e propriedade;
  • criou uma exceção para os órgãos de comunicação social para garantir o direito a informar e a ser informado;
  • criou uma exceção para as bibliotecas e outras instituições de património, que de outra forma não poderiam existir, para garantir o direito fundamental de acesso à cultura e património;
  • criou várias outras exceções que podem ser lidas no artigo 75º e seguintes do Código de Direito de Autor e Direitos Conexos [PDF].

Em 2004, Portugal transpôs a Diretiva Europeia sobre Direito de Autor (InfoSoc), que passava a dar proteção ao DRM (também chamado de tecnologias anti-cópia ou medidas tecnológicas). Assim, a lei portuguesa foi alterada para dizer que ninguém poderia neutralizar o DRM de uma obra, mesmo que quisesse fazer uma utilização legal.

Como exemplo, se comprarem um ebook e quiserem fazer uma cópia privada para o ler noutro dispositivo, a lei diz que têm esse direito, mas se o ebook tiver DRM (a maioria tem), então não podem neutralizar esse DRM. Como não é possível fazer uma cópia privada da obra sem neutralizar o DRM, isto significa que apesar de continuarmos a ter o direito à cópia privada, não podemos exercer esse direito.

 

O DRM impede todas as utilizações livres, desde a cópia privada (que todos nós pagamos através de uma taxa), passando pela utilização para fins de ensino e de investigação científica, pela utilização para fins de crítica, discussão ou opinião, etc. Na verdade, a lei ao proibir a neutralização do DRM, mesmo para ações legais, impede os cidadãos de exercerem os seus direitos fundamentais.

O Bloco de Esquerda submeteu um projeto de lei, que pretende resolver este problema. Se for aprovado, os cidadãos poderão passar a neutralizar o DRM para realizar as utilizações livres, e apenas estas, já descritas na lei (cópia privada, utilização para fins de ensino e de investigação científica, etc.).

Tendo em conta que a alteração que este projeto de lei propõe é apenas a de garantir que todos nós possamos exercer o que a lei permite, parece estranho que este projeto ainda não tenha sido aprovado, mas a verdade é que ainda há pessoas e entidades que querem continuar a proibir as pessoas de exercerem os seus direitos fundamentais.

Assim, se puderem e quiserem contactar os deputados da Comissão para lhes dizer como é importante que este projeto seja aprovado, podem fazê-lo por email, neste link. A votação na Comissão está marcada para amanhã às 16h.

A Associação Ensino Livre tem contribuído para esta discussão, através de pareceres e reuniões no Parlamento. Mais info aqui.

 

Advertisements

#DraftLeak Directiva Europeia Text and Data Mining: #Startups de fora

Continuando uma leitura rápida do leak do IPKAT, que pode vir a ser a próxima directiva europeia sobre a harmonização do direito de autor, é importante olharmos para uma nova excepção, que se encontra descrita no artigo 3 do referido documento.

Uma das alterações mais esperadas da directiva europeia sobre a harmonização do #copyright é a excepção para o Text and Data Mining (TDM).

TDM refere-se ao processo de “ler” enormes quantidades de texto ou dados, através de uma máquina (por exemplo, um computador), extrair informação e encontrar padrões e tendências, que nos permitam tirar conclusões. Esta técnica pode fazer avançar o conhecimento, de uma determinada área, de forma exponencial, e o conhecimento que dela se obtém é impossível de conseguir de outra forma. Tem sido usada também em diversas áreas, Medicina, Humanidades, Jornalismo, Física, entre outras, e tem impactos directos no nosso dia-a-dia. Um exemplo é a capacidade desta técnica permitir o redesenho óptimo de uma rede de transportes públicos,numa cidade. Se usam aplicações que vos mostram o trânsito ou ocorrências num determinado percurso estão a ter um benefício directo de técnicas de data mining.

É, portanto, muito positivo ver esta excepção a ser criada. Mas as boas notícias acabam aqui. Segundo o documento, apenas as organizações de investigação poderão fazer uso desta excepção e desde que o façam para fins de investigação científica.

Ficam assim de fora, câmaras municipais, jornalistas, cidadãos, empresas, etc. E no caso de organizações de investigação, as acções só são permitidas para fins de investigação científica, o que restringe a possibilidade de utilização do conhecimento gerado noutro âmbito, que não o académico.

O outro problema neste artigo está indicado no ponto 3, que permite que os titulares dos direitos coloquem medidas para proteger as redes e bases de dados onde se encontram os conteúdos. Apesar do mesmo ponto referir que estas medidas não devem exceder as necessárias para alcançar esse objectivo de protecção, a verdade é que isto permite que os titulares impeçam o text and data mining. O próprio artigo reconhece esta possibilidade porque logo no ponto seguinte diz que os Estados Membros devem encorajar titulares e organizações de investigação a acordar boas práticas relativas à utilização destas medidas.

Recentemente, Chris H.J. Hartgerink, investigador de estatística, viu dois dos maiores editores de publicações científicas vedarem-lhe a possibilidade de fazer TDM em artigos a que tinha legalmente acesso. Quando denunciou publicamente o que estava acontecer, os editores responderam que o investigador podia usar a API (software/método) disponibilizada pelos editores. O problema é que estas APIs são extremamente limitadas naquilo que permitem o investigador fazer.

Se a Comissão Europeia decide, e bem, abrir uma excepção para o TDM então deve fazê-lo de forma a proteger quem pode fazer uso de tal excepção, ao mesmo tempo que deve garantir que os titulares não podem contornar a excepção.

Mas a forma como este artigo está redigido permitirá facilmente aos titulares dos direitos impedirem o TDM. Não é razoável achar que, depois de se abrir uma excepção que vai contra a vontade dos titulares, estes tenham a boa vontade de acordar boas práticas que sejam favoráveis àquilo que os investigadores queiram fazer. O mais provável é os investigadores ficarem dependentes das API’s e, portanto, dependentes do que os titulares deixarem o investigador fazer, como aconteceu no caso do Chris H.J. Hartgerink.

Call for Papers: Lost and Transformed Cities

lost-cities-com-predios

The International Conference Lost and Transformed Cities: A Digital Perspective, that will take place @ Faculty of Social Sciences and Humanities, Nova University of Lisbon, during 17th and 18th of November, has an open call for papers in the following topics:

The historic city from 2D to virtual and augmented reality;
Cities as virtual museums;
Cities, tourism and digital heritage;
Digital Heritage: methodological and epistemological challenges;
The contemporary city and digital citizenship.

The abstracts submission deadline is 30th June 2016. If you want to add the deadline and conference dates to your calendar, you can download an .ics here.

Detailed information regarding the submission, venue and accommodation can be found at the conference’s website and you can follow the updates @ the conference’s Facebook page.

“Through the intersection of digital technology with historical practice it is possible to convey a perspective of the past as a sensorial-perceptive reality. The resulting knowledge furthers the understanding of the present-day city and the planning of the city of the future. Cities in the digital realm are, therefore, presented in their historical continuum, in their comprehensive and complex reality and are opened to interaction in a contemporary social context.”  – Lost and Transformed Cities

 

Call for Papers: 3º Encontro de Humanidades Digitais #3EHD @RedHD

redhd1

A RedHD (Red de Humanidades Digitales) abriu uma chamada de artigos para o 3er Encuentro de Humanistas Digitales, a ter lugar nos dias 12 a 14 de Setembro de 2016, no El Colegio de México.

O prazo de submissão é 3 de Abril de 2016 e os tópicos incluem comunicação e publicação científica digital; património e tecnologia; redes como ferramentas de investigação; ensino de humanidades digitais; recursos para projectos de Humanidades, entre outros.

Informação mais detalhada pode ser consultada na página do encontro. Se quiserem adicionar ao vosso calendário as datas de submissão e do encontro podem fazer aqui o download de um ics que criei.

Workshop #HumanidadesDigitais #SocialMedia #Investigadores @ihc_history #hdfcsh

Estive no workshop “Humanidades Digitais”, organizado pelo Centro de História d’Aquém e d’Além-Mar e pelo Instituto de História Contemporânea, ambos da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, para falar sobre a importância da criação e gestão de uma presença na Web para os investigadores das Humanidades Digitais.

Para além da apresentação, queria partilhar alguns dos pontos mais importantes que os investigadores devem ter em conta, aquando da decisão de participar em redes sociais, mas se preferirem passar directamente à apresentação, ver o fim deste post. Acrescento ainda que as práticas aqui descritas tomam o utilizador como pessoa singular. No caso de entidades, instituições ou eventos há diferenças em algumas dessas práticas.

Comecei por mostrar três exemplos de conteúdos científicos ou académicos produzidos e editados através das redes sociais. Os primeiros dois exemplos, respeitantes à publicação científica e, portanto, muito próximos dos investigadores, concernem um livro de papel, Hacking the Academy, cuja chamada e submissão de artigos foi realizada através do Twitter, e uma revista científica, Journal of Digital Humanities, cujos artigos são escritos em blogs, passam por uma primeira selecção publicada no Digital Humanities Now e seguem nova selecção antes de serem publicados na revista. Nos últimos anos, temos observado ainda o aparecimento de ferramentas que permitem a edição, triagem e colaboração em conteúdos científicos escritos na Web. O Press Forward dirigido à curadoria e disseminação, o Anthologize, que permite facilmente transformar posts de um blog em formato livro ou o CommentPress, que permite diferentes tipos de interacção com o texto e usado, entre outros, pela Kathleen Fitzpatrick no seu livro Scholarly Publishing in the Age of the Internet 2. MLA Task Force Recommendations   MediaCommons   MediaCommons Press   Apesar dos exemplos anteriores estarem todos direccionados para a plataforma de blogs WordPress, existem outros, que respondem a esta necessidade de interacção, alguns mesmo criados pelos editores, como é o caso do livro Debates in the Digital Humanities:

“The printed book was, from the earliest stages of the publication process, intertwined with digital platforms: following the model of peer-to-peer review described by Kathleen Fitzpatrick in Planned Obsolescence, all essays in the book were part of a semi-public, web-based review process that mixed new forms of peer-to-peer review with more traditional models of publisher-based blind peer review.”

Debates in the Digital Humanities O terceiro exemplo olha para as redes sociais como fontes de dados, para mostrar a importância da presença do historiador nas redes sociais. O Hypercities Egypt surgiu de uma ideia de dois historiadores de preservar e mapear os tweets que estavam a ser publicados pelos cidadãos na praça Tahir aquando da Primavera Árabe.

Gestão de curriculum e redes de contactos

Para o investigador, é muito importante poder falar do seu trabalho, assim como criar uma rede de contactos com outros investigadores. Não apenas por causa da sua avaliação, mas porque esse mesmo trabalho depende do feedback dos pares. Para isto, é necessário chamar a atenção para o nosso trabalho.

No mundo analógico, falar sobre o nosso trabalho (numa conferência ou submissão de um artigo, por exemplo) é muito similar a chamar a atenção para esse trabalho – temos uma audiência predisposta a ouvir-nos – e a troca de contactos, nestes eventos, realiza-se quando já existe uma possibilidade de colaboração futura ou interesse em seguir o trabalho do colega, ou seja, quando uma relação já foi iniciada.

No mundo digital, caracterizado por uma abundância de conteúdos, falar do nosso trabalho não implica necessariamente ter uma audiência atenta, pelo que é importante criar uma presença na Web, que transmita uma imagem coerente e profissional do nosso trabalho e que permita, por um lado chamar a atenção para o que fazemos e por outro que estimule a criação de relações que possam derivar em contactos para colaborações futuras.

Na verdade, isto não é muito diferente do que fazemos no mundo analógico, apenas usamos ferramentas diferentes.

Presença Web

Criar uma presença Web implica considerar três níveis de acção:

  • Receber informação
  • Dar informação
  • Rede de contactos

Receber informação

Num mundo de abundância de conteúdos, receber informação significa, na realidade, receber informação à medida dos nossos interesses. Ou seja, queremos que a informação chegue até nós, em vez de a irmos procurar, mas queremos que a informação que nos chega seja a mais relevante, já que nenhum ser humano tem capacidade para fazer a triagem dos conteúdos que hoje podem potencialmente chegar até nós. As redes sociais são ferramentas poderosas para fazer esta curation, mas é preciso ter em atenção alguns pontos.

A informação que nos chega através de uma rede depende da informação que os utilizadores que seguimos partilham, pelo que ao tomar a decisão de seguir determinado utilizador é importante verificar o perfil desse utilizador, perceber que tipo de informação partilha e com que regularidade. Algumas formas para encontrar pessoas a seguir numa rede social:

  • Se lemos um livro ou artigo científico importante para o nosso trabalho, podemos fazer uma pesquisa para tentar perceber se o(s) autor(es) estão numa rede social;
  • Se encontramos um website de um projecto que nos interessa seguir, podemos ver nesse site se há links para as redes sociais;
  • Olhar para hashtags relacionadas com a nossa área é outra forma de encontrar especialistas que podemos querer seguir (#digitalhumanities #digitalhistory #Twitterstorians etc.)
  • Seguir eventos. Muitas conferências e workshops têm hoje uma hashtag através da qual podemos ir seguindo o que se passa. Como exemplo, o workshop onde esta apresentação foi dada, #hdfcsh, ou a recente e anual conferência “Digital Humanities 2015”, #dh2015
  • Outra opção é olhar para a lista de utilizadores que uma pessoa que seguimos, segue. É preciso ter algum cuidado com esta opção: se a maior parte das pessoas que seguimos se seguirem entre elas podemos entrar num círculo onde a informação se torna demasiado repetitiva e onde é difícil entrarem ideias novas.

Dar informação

É importante também decidir sobre o tipo de estratégia que se quer ter. Algumas pessoas optam por usar as redes para fins exclusivamente profissionais, especificamente sobre a sua área de especialidade. Esta opção tem a vantagem de tornar mais fácil a criação de uma imagem, mas também tem a desvantagem de tornar o nosso perfil demasiado “oficial”, mais distante e menos verosímil (com excepção para as redes especializadas, como a Academia, o ResearchGate, o Figshare), e portanto mais difícil será estabelecer relações e discussões com outros utilizadores. Por outro lado, não somos apenas investigadores, temos outros interesses. E estas diferentes valências e interesses são positivos porque estimulam a criatividade.

We create the new not generally through some mad moment of inspiration in fictionalized accounts of ancient Greeks in baths (though the conditions for this can be forced into existence), but by putting things together that do not normally go together; from taking disciplines (or curriculum areas) and seeing what happens when they are forced into unanticipated collision.

in Dancing About Architecture by Phil Beadle reviewed by Maria Popova

Ao dar informação, há vários aspectos a ter em conta dos quais gostaria de sublinhar os mais importantes:

  • Escolher a informação mais rigorosa, mais pertinente e mais clara, independentemente dessa informação se relacionar com a nossa área de especialidade ou se relacionar com um assunto mais generalista;
  • Ter sempre presente que a partilha é pública e, portanto, qualquer pessoa pode ver essa informação. Isto não significa que não possamos dar uma opinião ou defender um argumento, devemos apenas estar preparados para o fazer em público;
  • Nunca apagar informação, nem coagir outros a fazê-lo (Streisand Effect). Se editada para corrigir um erro ou uma gralha, chamar a atenção para a correcção;
  • Ao partilhar links, ter atenção com o texto que acompanha o link. Não partilhar apenas o link, que não mostra a razão pela qual a nossa audiência pode achar tal informação interessante;
  • Destacar o que é produzido por nós. Os utilizadores que nos seguem terão interesse em acompanhar o nosso trabalho;
  • Interagir com a audiência.

Rede de contactos

Há várias formas de interagir com a audiência, como por exemplo, fazendo retweet, mencionando uma pessoa, fazendo gosto ou comentando uma informação que chega até nós. É importante, no entanto, perceber o que significam estas acções. Assim, quando fazemos retweets; mentions; quote; shares; favorites; likes; +1; etc. estamos a comunicar várias coisas:

  • às pessoas que partilharam essa informação, estamos a dizer que a considerámos importante e estamos também a aumentar a reputação dessa pessoa (ou site, no caso de um link);
  • à nossa audiência, estamos a dizer que devem ver aquela informação por acharmos que pode ter interesse para essa audiência – se partilhamos informação que não lemos criticamente, perdemos a confiança da nossa audiência;
  • aos algoritmos que regem as redes sociais estamos a dizer que queremos mais informação como aquela – isto é mais visível em algumas redes como o Facebook. Esta rede mostra-nos apenas uma pequena percentagem do que os nossos contactos partilham e a selecção desses conteúdos é feita através da nossa interacção com informação anterior. O ano passado, Mat Honan da Wired, decidiu fazer uma experiência e começar a fazer like em todos os posts, mesmo os que não lhe interessavam, da sua timeline do Facebook. Em pouco tempo, a informação que lhe passou a chegar era-lhe irrelevante:

    My News Feed took on an entirely new character in a surprisingly short amount of time. After checking in and liking a bunch of stuff over the course of an hour, there were no human beings in my feed anymore. It became about brands and messaging, rather than humans with messages.

Aspectos Técnicos

Um exercício que podemos fazer, de vez em quando, é procurar o nosso nome no Google (ou noutro motor de pesquisa), de preferência num computador que não usemos habitualmente e verificar se os links que aparecem são para sites nossos ou se mostram a imagem que queremos ter.

Se usamos várias páginas ou redes sociais, serviços como o About.Me permitem agregar todas essas presenças num único site, o que torna mais fácil dar o nosso contacto.

Outro aspecto importante a ter em conta para a nossa presença web ser facilmente encontrada é manter uma coerência entre as várias redes, que pode ser obtida pela utilização do mesmo nome/username, e por não mudar regularmente a foto de perfil e foto de capa.

Métricas alternativas #Altmetrics

Na investigação científica usam-se métricas, indicadores e métodos para avaliar o trabalho do investigador, avaliação essa que é inerente ao processo científico. Entre outros, temos a revisão pelos pares, vulgo peer-review, e a recente febre do número de publicações e citações.

Mas todos estes métodos e métricas têm falhas e não conseguem, per se, avaliar correctamente o trabalho do investigador: Cyril Labbé da Universidade Joseph Fourier mostrou que mais de 120 artigos publicados em revistas científicas de editores como a Springer ou o IEEE, peer-reviewed, foram na verdade gerados pelo SCIgen, um programa de computador para gerar artigos, criado no MIT em 2005. Nos anos 70, Mahoney, concluiu que os investigadores que participaram na experiência tendiam a aprovar os artigos cujas conclusões eram positivas em relação ao conhecimento dominante e a rejeitar aqueles cujas conclusões eram negativas. Anteriormente, tinha já observado noutra experiência que citar as próprias publicações “in press” podia aumentar a probabilidade do artigo ser aceite. Regularmente, artigos são retirados por serem encontrados erros, a ponto de ser possível alimentar um blog apenas com essa informação. O número de citações também tem falhas, muitas vezes este número não distingue entre citações positivas ou negativas. Um artigo pode ser muito citado por conter erros, por exemplo.

Apesar destas e outras falhas e não havendo alternativas, a maioria dos investigadores não está disponível para eliminar estas formas de avaliação. Elas podem ser úteis em conjunto, desde que não nos deixemos deslumbrar por elas. Uma das recomendações do relatório “The Metric Tide” do HEFCE, é precisamente:

“Humility: recognising that quantitative evaluation should support – but not supplant – qualitative, expert assessment”

As chamadas altmetrics, que medem o número de downloads, o número de partilhas, de seguidores, entre outros, devem também ter um uso cuidado. Tal como as métricas anteriores, elas não avaliam per se o trabalho do investigador e são passíveis de serem manipuladas: é possível comprar likes no Facebook ou usar ferramentas que automatizam o número de downloads ou aumentam o número de seguidores. Este tipo de prática não nos é útil (e é péssimo para a nossa imagem). É verdade que queremos seguidores, mas queremos que essas pessoas nos sigam porque estão interessadas no nosso trabalho ou na informação que partilhamos.

Se não nos deixarmos entusiasmar pelas métricas alternativas, elas podem ser bastante úteis, não só como um factor que se pode juntar aos já usados para tentar avaliar o impacto do trabalho em questão, mas principalmente porque elas nos ajudam a perceber e a corrigir a nossa própria actuação nas redes sociais, em termos de forma do discurso.

No mundo analógico adequamos o nosso discurso, dependendo se estamos numa conferência, numa aula ou numa reunião do nosso grupo de investigação. Nos media tradicionais, o discurso radiofónico não funciona na televisão, assim como o tipo de escrita num jornal de papel não funciona online. Também as redes sociais têm tipos de discurso diferentes: a probabilidade de um tweet gerar atenção aumenta se tiver uma imagem, posts com palavras que incitam a uma acção (mais verbos, menos nomes) tendem a ter mais interacção da audiência, etc.

Não precisamos de estar constantemente a verificar os analytics das nossas redes sociais, mas é importante que de vez em quando olhemos para estas métricas e tentemos perceber se houve picos de interesse, que tipo de conteúdos gerou esses picos e se há padrões nas diferenças para conteúdos que geraram menos interesse. Podemos ainda usar ferramentas que nos ajudam a perceber melhor a nossa audiência, como a que horas está online ou que áreas lhe são mais interessantes.

Em que redes sociais estar?

Quanto mais redes usarmos e mais informação dermos sobre o nosso trabalho, maior a probabilidade de chamar a atenção para esse trabalho. Por outro lado, quanto mais redes usarmos, mais tempo temos de alocar a essas redes (ainda que existam diferentes ferramentas que interligam as várias redes, reduzindo o tempo necessário).

Na minha opinião, um investigador em Humanidades Digitais (HD), terá interesse em estar:

Screenshot da app do Guardian
  • Twitter – O Twitter tem uma comunidade de investigadores em HD coesa e é o meio mais eficaz para sabermos rapidamente o que está acontecer nesta área. É ainda extremamente útil para seguirmos conferências, a que não pudemos ir, interagir com outros colegas ou mesmo seguir o desenvolvimento de projectos na área.
    O Twitter é a rádio do século XXI, se queremos saber rapidamente o que está acontecer é para lá que nos dirigimos. Se acompanharam a cobertura em directo que o Guardian fez dos recentes acontecimentos na Grécia, repararam que muitas fontes usadas vieram do Twitter.
  • LinkedIn – O LinkedIn é uma rede para profissionais, onde podemos inserir o nosso curriculum vitae, estabelecer contactos com outros investigadores e participar em grupos de discussão especializados.

É ainda importante olhar para redes mais especializadas, como o Academia, o Figshare ou o ResearchGate, entre outras. Mas é preciso ter em atenção alguns pontos. Verificar os Terms of Service (ToS) para perceber o que estamos a autorizar a tais empresas. Nunca ver estas redes como backups, mas como montras do nosso trabalho. No caso de artigos ou outro tipo de conteúdos já publicados, perceber em que condições foram publicados (muitos investigadores publicam artigos passando os direitos de autor para o editor, ficando nesse caso o investigador impedido de republicar esses artigos noutras plataformas).

No fim da apresentação, listo um conjunto de recursos que podem ser úteis para quem quer começar a usar (mais regularmente) as redes sociais.

[A apresentação foi editada, no primeiro slide, para adicionar o link para o IHC e para o CHAM, que organizaram o evento, e para adicionar o link para o CEIS20, centro de investigação a que pertenço.]