O jornalismo de ameaça

Um investigador defendeu e viu aprovada a sua tese de doutoramento, cujas conclusões incomodaram uma empresa e um organismo regulador. A empresa disse, então, que ía processar o investigador. A universidade emitiu um comunicado aparentemente receoso. E os jornais cobriram a novela.

O público leitor (principalmente os investigadores) reagiu. E muito bem, na minha opinião. Não porque a empresa não possa processar quem bem entender, nem porque um investigador que defendeu e viu aprovada a sua tese não a pudesse defender à frente de um juiz, mas porque a forma como isto chegou ao público configura uma ameaça cuja consequência pode redundar em auto censura nos investigadores. Afinal, a ameaça de ir a tribunal não é brincadeira nenhuma.

Mas a responsabilidade da existência pública da ameaça é dos jornalistas. Vejamos:

Sai a notícia sobre as conclusões da tese. A empresa lança um comunicado a dizer que vai processar o investigador e os jornalistas transformam-se em pés de microfone e correm a fazer o copy/paste.

O que é que os jornalistas deviam ter feito quando receberam o comunicado da empresa? Deviam ter ficado quietos. Se houvesse reacções ao conteúdo, fazia-se notícia. Se a única reacção é “a empresa diz que vai processar”, os jornalistas deviam ter pensado “se e quando a empresa levar a tribunal, cá estaremos para dar a notícia. Até lá, não temos notícia, temos uma ameaça”.

Mais grave e execrável é ter havido títulos jornalísticos do tipo “empresa leva a tribunal investigador”, quando o que aconteceu na verdade é que a empresa “disse que ía levar…”. É o jornalismo do diz que disse.

Seria um exercício interessante recolher notícias do tipo “fulano diz que leva beltrano a tribunal” e depois verificar quantos “fulanos” é que levaram realmente “beltranos” a tribunal.

A verdade é que a empresa atingiu o seu objectivo quando a ameaça foi tornada pública e os jornalistas caíram que nem uns patinhos.

E estes dormem descansados porque metem umas aspas e demarcam-se assim de responsabilidades, achando que assim transformam intenções em “factos” “objectivos”. [Ver Gaye Tuchman PDF]

O mais estranho é que são estes mesmos jornalistas que se admiram que as pessoas estejam a deixar de comprar jornais…

Aqui podem assinar a “Petição pela Liberdade de Investigação Académica”

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