Portugueses recorrem a “demasiadas consultas médicas”

Segundo o Público, a ministra da Saúde disse que “os portugueses recorrem a “demasiadas consultas médicas””. O porta-voz do Movimento de Utentes dos Serviços de Saúde considerou as declarações “infelizes” e eu concordo com ele, pelas razões que invocou.

Mais adiante pode ler-se:

De acordo com a titular da Saúde, os portugueses “recorrem às consultas médicas sem necessidade, quando precisariam antes de outro tipo de atendimento prestado por outros profissionais, como enfermeiros ou terapeutas”.

Negrito meu.

Na minha opinião, estas declarações são infelizes por duas razões. A primeira já foi explicada na notícia, da segunda falarei agora.

Se há portugueses que recorrem às consultas médicas sem necessidade, a culpa é do sistema. Não é dos portugueses. Vou dar-vos dois exemplos, que aconteceram e acontecerão comigo.

No Domingo, deparei-me com um problema de saúde que não me pareceu grave, pelo que passei numa farmácia. O farmacêutico disse-me que eu devia ir ao médico porque o problema era mais grave do que eu pensava.

Na segunda-feira, fui ao Centro de Saúde, marquei uma consulta e fui atendida. A médica analisou o problema, medicou-me e a seguir enviou-me para a enfermaria para tratar e fazer o penso. As sras. enfermeiras disseram-me que eu teria, pelos menos durante esta semana, de ir lá fazer o penso todos os dias. Na quarta-feira, a enfermeira perguntou-me se a médica tinha marcado a cirurgia no hospital. Ora, nunca ninguém me tinha falado em cirurgia! Disse-me a enfermeira que não era grave, mas convinha fazer porque caso contrário eu iria ter o mesmo problema (e acreditem, com as dores que tive, não quero passar pelo mesmo): trata-se de uma pequena cirurgia, com anestesia local, mas convinha marcar rapidamente, pois estas coisas com o hospital demoram e se se atrasar muito pode deixar de ser possível resolver o problema com uma pequena cirurgia e ter de ser mesmo operada.

Pelo que no dia seguinte (ontem) marquei uma consulta, fui atendida pela mesma médica a quem coloquei a questão e me confirmou que assim era, mas que não podia marcar com o hospital ontem porque não tinha sistema. Disse-me que como eu tinha de continuar a ir fazer o penso, que marcasse nova consulta, pois podia ser que já houvesse sistema.

Quando lá fui hoje, preparei-me para ir à consulta, mas disseram-me que ainda não havia sistema. Pelo que perguntei quando haveria sistema, ao que me responderam que talvez para a semana.

Por favor, não me perguntem o que é o sistema. A única coisa que sei é que caíu um raio e ficaram sem sistema. Sei ainda que o sistema é um problema informático, mas todas as pessoas (funcionárias, médicas, enfermeiras) estavam a usar perfeitamente os computadores, pelo que não deve ter a ver com os computadores em si.

De forma que, se tudo correr bem e se Sistema quiser, na próxima semana a médica marcará uma cirurgia no hospital que terá levado pelo menos (a ver vamos se não serão mais) quatro consultas médicas (sim, quatro consultas) para conseguir ser marcada.

Passo agora ao segundo exemplo: Tenho dois problemas de saúde, para os quais terei de tomar medicação para o resto da vida. Não tenho de tomar sempre, são problemas que aparecem, faço a medicação, desaparecem e voltam a aparecer mais tarde. Não têm cura, mas controlam-se bem. Esta situação está descrita no meu processo no Centro de Saúde, qualquer médico que lhe aceda vê quais são os problemas e a medicação que tenho de tomar quando aparecem.

Pensava eu que podia dirigir-me ao Centro de Saúde (parece que é um dos melhores do país) deixar as caixinhas ou os nomes dos medicamentos (para os quais é obrigatório receita) e ir buscar a receita uns dias depois.

Mas não, isso não é possível.

Cada vez que um dos medicamentos está prestes a acabar, vou ao Centro de Saúde, sou obrigada a marcar consulta, espero, entro no consultório, coloco as caixinhas à frente da médica e “era uma receita, se faz favor”, saio e vou a farmácia.

Eu sei que estou a tirar a vez a uma pessoa que precisa mesmo de ser vista por um médico. E o que mais me irrita, é que me obrigam a isso. O outro sistema.

One thought on “Portugueses recorrem a “demasiadas consultas médicas”

  1. Anonimo says:

    Pois é… Os governantes ainda não perceberam que um dia de trabalho num centro de Saúde junto dos utentes, compensa um mês de trabalho no gabinete dentro do Ministério. Resolver este teu problema que encontraste e muitos outros semelhantes, teria um efeito cascata na poupança e no número de consultas marcadas. Estes governantes de visão, têm zero.

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