As bibliotecas, eu e a decisão da Harper Collins

Quando andava na escola primária, notei que a minha escola tinha uma sala diferente das outras. As recordações são difusas, mas o que primeiro me chamou a atenção naquela sala foi o chão: era alcatifado. A sala também parecia mais luminosa e acolhedora do que as outras salas. Quando entrei nessa sala, deparei-me com estantes recheadas de livros: era a biblioteca.

O mais fantástico é que não só podia ir lá quando quisesse e tirar um livro da estante para ler, como podia mesmo levá-lo para casa durante algum tempo.

Esta descoberta deve ter dado umas quantas dores de cabeça à minha mãe, pois ela ainda hoje conta que quando íamos à baixa ao sábado às compras, costumava, de vez em quando, comprar-me um livro, que eu lia enquanto esperávamos pelo autocarro. Acabado o livro e o autocarro sem chegar, puxava-lhe a saia e dizia-lhe que já o tinha lido. Ela costumava responder qualquer coisa como “E então? Não te posso ir comprar outro! Os livros são caros. Lê esse outra vez”

Que ela não me podia ir comprar outro eu percebia – podem não acreditar, mas viviam-se tempos muito difíceis. O que eu não percebia era porque é que ela não podia ir pedir à senhora que tinha vendido o livro para trocá-lo por outro que eu ainda não tivesse lido!

Numa das últimas vezes que estivemos em casa dos meus pais, contava a minha mãe, muito divertida, ao Marcos, “Imagine que ela queria eu fosse dizer à mulher para me trocar o livro, porque ela já o tinha lido! Eu lá era capaz de fazer tal coisa!”.

Foi, pois, muito provavelmente, numa paragem de autocarro que percebi que aquela sala da minha escola era ainda mais especial.

Um dia em que eu estava na sala de aula, a contínua (funcionária daquele piso) bateu à porta, foi falar qualquer coisa com a professora que se virou para mim, mandando-me acompanhar a contínua à biblioteca.

Apanhei um susto que vocês não imaginam! Não, aquilo não podia ser coisa boa. Já tinha acontecido, a contínua vir chamar alunos à sala, mas isso significava que eles tinham feito alguma traquinice no intervalo, estragado qualquer coisa no recreio e eram chamados à responsabilidade.

Agora era eu! E para ir à biblioteca! Fui todo o caminho a pensar “será que algum dos livros que entreguei apareceu estragado?”, “será que me esqueci de entregar um livro?”. Não, não podia ser. Mas coisa boa não era, que não havia memória de uma contínua ter ido buscar um aluno à sala para uma coisa boa.

Quando chegámos à biblioteca, havia um ar de festa e estavam mais alunos sentados virados para a grande mesa das senhoras da biblioteca. Estava a pensar como aquilo era estranho quando uma das senhoras da biblioteca me chamou dizendo que a biblioteca da escola me ía dar um livro por eu ter sido a pessoa que requisitou mais livros, naquele ano!

O mundo estava completamente louco! Não podia ser! Não só havia aquela sala, com o chão alcatifado, onde eu podia ir ler livros, como podia mesmo levá-los para ler em casa e agora, agora ainda me davam um livro?!

No ano seguinte, o livro que me deram foi “O Cavaleiro da Dinamarca” de  Sophia de Mello Breyner Andresen:

Depois deixei aquela escola e fui para ciclo. Foram dois anos negros na minha relação com as bibliotecas. Lembro-me de ter lá ido algumas (poucas) vezes. Lembro-me que requisitei um livro, mas não gostei. Nem do livro, nem da biblioteca: era uma sala, que mais parecia um corredor, escura, com estantes de metal frias. Não, aquilo não tinha nada a ver com a sala quente (com chão alcatifado!) da minha anterior escola!

Depois mudei outra vez de escola para fazer o secundário, do 7º ano ao 12º, e voltei ao maravilhoso mundo das bibliotecas. A biblioteca da minha nova escola era a biblioteca mais bela que alguma vez tinha visto! Quando abríamos a porta de madeira éramos imediatamente invadidos pelo “cheiro a biblioteca”. A impressão foi tão forte que ainda hoje, neste preciso momento em que escrevo, sou capaz de recriar na minha memória as misturas de cheiro a cera, madeira e livros da altura!

Em frente, via-se uma parede cheia de janelas, entrecortadas por espacinhos de parede onde estavam encostadas pequenas estantes perpendiculares à parede. Por baixo das janelas havia uns móveis cinzentos de metal com gavetas pequeninas.

Do lado esquerdo, a parede estava forrada a estantes de madeira – do chão ao tecto – com portas com rede por onde se viam as lombadas dos livros. Do lado direito a mesma coisa, com a única excepção de uma porta que costumava estar fechada ou entreaberta, e à qual não era permitido o acesso. Lembro-me que uma vez, roída pela curiosidade, espreitei lá para dentro e descobri, indignada, que ali havia mais livros! Escondiam ali livros! Comecei a fazer perguntas sobre aquela sala, a que não podia ir, até a senhora da biblioteca me explicar que era ali que guardavam os livros que não cabiam na sala principal, mas só descansei quando ela me mostrou a tal salinha e verifiquei que eram sobretudo manuais escolares e livros técnicos. Na parede defronte à das janelas, as estantes continuavam – sempre do chão ao tecto – excepto na área exacta da porta de entrada.

Na sala enorme, havia ainda três mesas muito compridas, pesadas e de madeira escura e brilhante, forradas a napa (?) no centro. As cadeiras eram antigas, também de madeira e muito pesadas.

Também descobri que nem todo o calçado era apropriado àquela biblioteca: algum calçado (como sapatilhas) fazia um som, que eu não consigo descrever, mas que garanto que fazia as cabeças de quem estivesse a trabalhar erguerem-se.

Foi nessa altura que a senhora da biblioteca também me explicou que aqueles armários de metal cinzento, com gavetas pequeninas, continham a chave para encontrar os livros naquela biblioteca. Assim, se eu quisesse um livro, podia procurar alfabeticamente por título ou por autor, depois precisava apenas de tirar um conjunto de letras e números, a que se chama cota, e ela saberia onde estaria o livro para eu requisitar.

Não me lembro se cheguei a dizer, ou se apenas o pensei, à D. Margarida (a senhora da biblioteca) que aquela estratégia não me parecia nada adequada a tal local. Não, a melhor estratégia, naquele paraíso, era começar por uma ponta e acabar na outra!

E se bem o pensei, melhor o fiz. Comecei por pedir os livros da estante, do lado esquerdo, mais encostada à janela e que se encontravam atrás da secretária da D. Margarida. Eram livros muito altos, com capa dura, mas isso não me detinha. A D. Margarida explicou-me que aqueles livros não podiam sair da biblioteca e que para além disso era provável que eu não fosse achá-los assim tão interessantes, pelo que lhe perguntei, então, onde é que começavam as estantes cujos livros podiam ser requisitados.

Indicou-me umas estantes que começavam logo depois da sua grande secretária e eu comecei por aí. No 7º ano, dei conta das estantes onde estavam “Os cinco”, “Os sete”, “Patrícia”, “Carlota”, “Mistério”, “Langelot”, Condessa de Ségur “Biblioteca de raparigas”, “Biblioteca de rapazes”, e tantos outros. Destes só a colecção “Biblioteca de rapazes” me decepcionou, pelo que não cheguei a lê-la toda. Entretanto, o ano acabou e quando passei para o 8º ano, comecei com as estantes a seguir: romances. Max du Veuzit, Hall Caine, Fanny, “A mulher de branco”, “O Monte dos Vendavais” e tantos outros dos quais já não guardo memória dos títulos. Havia sempre uma heroína que sofria desgraçadamente e que no fim era salva pelo amor da vida dela. No 9º ano, passei para o conjunto de estantes seguintes: autores portugueses. “Uma família inglesa”, “Os meus amores”, “A Morgadinha dos Canaviais” e tantos outros.

Cheguei assim à porta da biblioteca. E tenho de dizer que, com alguma pena, mas não muita (a maior parte das estantes que restavam eram de enciclopédias), não passei para o outro lado.

É que até ao 9º ano, era muito fácil: bastava ter atenção nas aulas, fazer os trabalhos de casa e as notas resultavam boas. Mas no 10º ano, percebi que para além das aulas, dos (poucos) TPC, precisava de dedicar mais tempo ao estudo, para mais que as notas agora passavam a contar para entrar na universidade.

Não deixei de ler livros. Mas não já com a frequência (tantas vezes diária – ía às aulas, num dos intervalos ía entregar um livro e requisitar outro à biblioteca, depois ía ter com a minha mãe, fazia os TPC, e enquanto esperava que ela saísse lia boa parte do livro, chegava a casa, jantava, preparava a mala para o dia seguinte e antes de dormir lia a meia dúzia de páginas que restavam do livro e assim sucessivamente) de outrora. Pouco tempo depois de entrar na universidade, comecei a trabalhar em part-time ao fim-de-semana e podia assim comprar mais livros. Ao mesmo tempo, voltei outra vez com mais frequência às bibliotecas: a Geral, a da Economia, a da Escola – para os livros de estudo, e a Municipal – para a ficção. Mas tornei-me exigente. Com tanto livro, só no meu mundo, eu não ía conseguir ler todos, por isso tinha de ler os melhores, la crème de la crème.

Depois casei e mudei de cidade. Continuei (e continuo) a usar as bibliotecas universitárias, mas fiquei encantada com as bibliotecas municipais de Lisboa. Requisito nesta, entrego na que me der mais jeito. Já para não falar que moramos a cinco minutos (talvez menos) a pé de uma delas.

Continuamos a comprar livros. Muitos livros. Em livrarias, alfarrabistas, feiras e online O Marcos diz que eu não posso sair de casa, porque encontro sempre este ou aquele livro a que não resisto. Estimo que teremos, no mínimo 3000 livros (sim, três mil, pelo menos), alguns já em Lisboa, outros ainda em casa dos meus pais, em estantes no meu antigo quarto e em duas arcas e alguns caixotes no sótão.

Isto tudo para vos falar da mais recente decisão da Harper Collins de limitar o empréstimo dos seus ebooks por bibliotecas a 26 vezes (sim, leram bem, depois de 26 requisições, o livro deixa de poder ser requisitado). Limitação feita por DRM.

Esta decisão não só é execrável do ponto de vista moral, como nem sequer posso considerá-la positiva sob o ponto de vista do lucro. Sempre ouvi dizer que não é boa ideia morder a mão que nos dá de comer.

Na sua maioria, as pessoas compram livros porque gostam dos livros. E o gosto pelos livros não nasce connosco: é incutido, desenvolvido, estimulado.

Ora não há entidade nenhuma que tenha feito mais pelo incentivo e estimulação pela leitura e pelos livros do que as bibliotecas: experimentem entrar numa biblioteca municipal. Eu vou a uma biblioteca pelo menos uma vez por semana, e ele é a hora do conto, o ler em família, actividades com pintura e música, crianças para cá e para lá com livros na mão e sei lá que mais.

Eu não conheço ninguém pessoalmente, que eu saiba, que tenha requisitado, ao longo da vida, mais livros em bibliotecas do que eu. Ao mesmo tempo, também não conheço ninguém pessoalmente, que eu saiba, que tenha mais livros do que eu. Eu não acredito que isto seja coincidência.

Os defensores da restrição de empréstimo de ebooks, hão-de dizer-vos que a situação é diferente. Que no caso dos livros físicos, as pessoas têm de se deslocar à biblioteca de propósito e que no caso dos ebooks, o download é mais conveniente por não implicar a ida à biblioteca, pelo que isto “matará muitos escritores”.

Isto é mentira. E para provar que a conveniência de requisitar um livro não impede a sua compra, posso dar-vos o exemplo que aconteceu comigo e com o Marcos ontem.

Acordámos tarde, tomámos banho e saímos para almoçar fora, com alguns objectivos:

– Devolver um DVD e resolver um problema de um carregador do netbook na Fnac;

– Comprar tinta;

– Ir à biblioteca Camões;

– Passar no Continente para fazer umas compras.

Sublinho que quando saímos de casa, sabíamos que íamos à biblioteca. Quando chegámos lá, já tínhamos comprado dois livros. Deixem-me reformular: quando chegámos à biblioteca, já tínhamos comprado dois livros, que estavam disponíveis (mesma edição e tudo) para requisitar na biblioteca.

O leitor pode agora dizer “Ah, mas podiam tê-los comprado por não saberem se a biblioteca os tinha”. Ao que eu responderei que seria altamente improvável que a biblioteca de Camões, com as suas estantes especializadas em policiais os não tivesse. Mas mesmo que esse fosse um argumento importante, direi ainda que tenho internet no telemóvel e que poderia ter verificado antes de comprar os referidos livros se eles estavam disponíveis na biblioteca para a qual nos dirigíamos.

Depois de sairmos da biblioteca, descemos a rua e passámos por uma feirinha de livros onde comprámos mais um. Que também estava (e está) disponível na biblioteca. Se a conveniência fosse o argumento mais importante, teríamos percorrido os cinco minutos a pé a que estávamos da biblioteca e teríamos requisitado o livro em vez de o comprar.

E para que não restem dúvidas que estes três livros se encontram na Biblioteca Municipal Camões, aqui vos deixo os links:

A misteriosa chama da Rainha Loana – Umberto Eco

Os Vingadores: O dia depois de amanhã – Patrick Macnee

Contagem até zero – Agatha Christie

Na mesma tarde em que fui à biblioteca, requisitei livros e comprei livros (que podia ter requisitado em vez de comprar).

Pelo que uma maior conveniência em requisitar livros não resulta necessariamente em perda de vendas, prejudicando apenas as bibliotecas e, por consequência, os leitores, potenciais clientes.

Mas a decisão da Harper Collins consegue ser ainda mais abjecta. É que a função das bibliotecas não é apenas de emprestar livros aos leitores. Elas têm uma função ainda mais necessária. Eu diria mesmo, crucial: a de preservação dos livros.

Hoje há livros que precisamos ou que queremos que são absolutamente impossíveis de encontrar. Posso dizer-vos que corri todos os alfarrabistas (até no Chaminé da Mota no Porto, procurei) à procura de um (pelo menos um) exemplar da colecção de seis do “Almanaque do Gato Preto” do Vitor Palla para comprar, sem sucesso.

Exceptuando a biblioteca da PJ, que não sei se tem acesso ao público, o único local onde o consegui encontrar foi precisamente na Biblioteca Camões.

Se permitirmos que os livros das bibliotecas passem a ter DRM, e ainda por cima que o seu uso seja limitado a 26 requisições, estaremos a colocar em risco o acesso a livros que queiramos ler ou dos quais precisaremos no futuro.

Nenhuma decisão de nenhuma editora que ataque as bibliotecas e as impeça de cumprir o seu papel pode ser bom para os leitores e, consequentemente, também não pode ser bom para as editoras.

 

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