A definição de Aberto, a propósito de uma crónica de Luís Amaral

O sr Luís Amaral queixa-se, numa crónica no Diário de Notícias, sobre aquilo a que chama “confusão” entre software livre e normas abertas.

Eu aproveito este post para me queixar das recentes tentativas de algumas pessoas, o sr Luís Amaral incluído, de modificarem o significado de software aberto, conforme lhes dá mais jeito.

Software aberto é a abreviatura de Software de Código Aberto e significa exactamente o que podem ler na sua definição.

De há uns tempos para cá, o Software de Código Aberto tem vindo cada vez mais a mostrar a sua importância, daí que não me espante, embora me aborreça, que a sua designação seja abusivamente usada por aqueles que não tendo mais argumentos, tentam de alguma forma espalhar a confusão.

Se não, vejamos: o sr. Steve Jobs acha que aberto é algo tipo Windows, por este se poder instalar em vários tipos de hardware, outros acham que aberto é o software que não tem qualquer tipo de licença, e o sr Luís Amaral acha que aberto é o software que é interoperável com outro software.

Por aqui, o leitor já vê que cada pessoa se apropria da designação de software aberto para lhe dar a sua própria definição pessoal, conforme lhe convém.

Nos meus tempos de escola, a professora de Português deu-nos a ler, numa aula, um texto sobre um menino que achava que os nomes das coisas não estavam certos e assim começou a dar-lhes os nomes que achava mais apropriados. Um dos exemplos que me lembro era o menino chamar mexedor às colheres (mexedorzinho se fosse uma colher pequenina). Rapidamente, o menino percebeu que, continuando, não conseguiria fazer-se entender pelas outras pessoas.

Relativamente à queixa do sr. Luís Amaral sobre a “confusão” entre software livrenormas abertas, a explicação é muito simples: durante muito tempo, e, infelizmente ainda hoje, as empresas que vendem software proprietário, ou seja software fechado, fizeram o possível e o impossível para “trancar” os utilizadores a esse software, precisamente para evitar que os utilizadores passem a usar outro software concorrente. Veja-se o pesadelo que era trabalhar com odf (uma norma aberta para documentos) no Microsoft Office, mesmo depois da Microsoft garantir a sua utilização. Veja-se o caso da EndNote querer processar em tribunal o Zotero. E os exemplos abundam, por aí.

A utilização de normas abertas está intimamente relacionada com a utilização de software livre (ou de código aberto) porque é exactamente por este software ser de código aberto que nos dá a garantia dos nossos documentos, criados por esse software, serem e permanecerem “abertos”. Neste caso, mesmo que o software desapareça, qualquer pessoa terá o direito legal de criar um novo software capaz de abrir esses documentos.

A utilização de software proprietário (ou fechado) é o primeiro passo para criar e trabalhar com normas fechadas.

O sr. Luís Amaral argumenta ainda que a utilização de Software Livre implica mais custos como “o custo dos serviços de suporte, da formação dos utilizadores”.

Na minha opinião, este é um dos argumentos mais falaciosos: o software proprietário muda com o tempo, será que os utilizadores não precisam de formação? Haverá algum tipo de telepatia no software proprietário que faz com que os utilizadores saibam usá-lo sem nunca o terem aprendido? Será que o software proprietário se suporta a ele mesmo?

A utilização de software livre na Administração Pública pouparia muito dinheiro e garantiria a utilização de normas abertas. É claro que isto não daria lucro às empresas de software proprietário. Mas a função da Administração Pública não é sustentar empresas privadas, pois não?

(Via Lista da ANSOL)

2 thoughts on “A definição de Aberto, a propósito de uma crónica de Luís Amaral

  1. Pedro Fidalgo says:

    Este post já tem algum tempo mas decidi comentar na mesma, porque penso ser pertinente.

    Eu acho que não se percebeu mesmo a mensagem do Prof. Amaral e respectiva complexidade da adopção, implementação e exploração das TI na Admnistração Pública. O assunto das normas abertas, adopção de software livre ou proprietário e interoperabilidade depende muito da maturidade da organização e do próprio Governo, seus representantes e dos processos organizacionais na AP. Este tipo de decisões são importantes e vão muito para além do próprio software, implicam formação tanto dos utilizadores (Usabilidade) como de quem vai implementar e fazer melhoria contínua das TI no suporte à AP (implementação). Por exemplo, com as “normas abertas” ou software livre, e por ser livre, a segurança da informação (a segurança é um estado que se quer atingir, e a informação é um activo importante) as politicas de segurança dos sistemas de informação teriam um papel importantissimo e deveriam ser implementadas tendo em conta a adopção e desenvolvimento deste tipo de sistemas que na sua essência são sócio-técnicos (factor fulcral), e não simplesmente técnicos como a maior parte da crítica os entende e os explora. A redução de custos é importantissimo, toda a gente concorda e a eficiência e eficácia das adopção, implementação das TI são aspectos importantes a ter em conta mas isso é independente de qualquer tipo de software. O fim não é o software, o software (as TI) são um meio para atingir um fim. Caimos na conversa do que é livre ou o que não livre, mas a sustentabilidade e a melhoría contínua da AP é que é o foco da questão e as competências organizacionais para manipular tecnologias proprietárias ou livres não são definitivamente as mesmas porque os sistemas não funcionam todos da mesma maneira. A racionalidade tem que se sobrepor (cada caso é um caso) à nossa filosofia do que é software livre ou proprietário. A complexidade da adopção e implementação das TI vai muito para além destas circunstâncias, porque, repito, a tecnologia não é o fim mas sim um meio para suportar os processos de negócio organizacionais e a adopção das mesmas implica olhar para o contexto organizacional que inclui pessoas, processos e tecnologia. Penso que o Prof. Luis Amaral estava-se a referir-se a estes mesmos aspectos quando deu exemplos concretos do queria ilustrar (não defendendo o que é proprietário ou livre, criticando somente essa escolha não olhando o contexto, curto, médio e longo prazo, ou seja, um visão de planeamento) bem como a interoperabilidade na Administração Pública.

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