exemplos da censura em Portugal

O Ludwig Krippahl escreveu alguns posts sobre censura no blog “KTreta”. Concordo com quase tudo o que é dito, embora continue com algumas reservas relativamente à utilização do vocábulo “auto-censura”.

De facto, devemos ter algum cuidado com as palavras e nada como alguns (de entre demasiados) exemplos da censura [1] para colocarmos as coisas em perspectiva.

O Chefe do Estado recebe credenciais de um embaixador – é um acontecimento social -, mas não vai à CENSURA; no entanto, uma barraca de miséria com crianças à porta – é um aspecto social e tem de lá ir. 20-3-67

Julgamento de abate de burros, no Tribunal de Géneros Alimentícios. Não pode ser publicada qualquer referência aos meios coercivos pata obter confissões. 1-4-67

Inundações: os títulos não podem exceder a largura de 1/2 página e vão à CENSURA. Não falar no mau cheiro dos cadáveres. Actividades beneméritas de estudantes – CORTAR. 29-11-67

Baile de passagem de ano, no Palácio dos Valenças, em Sintra. Não dizer que a receita se destina às vítimas das inundações. 30-12-67

Anúncio da fábrica de Coina sobre a exportação de 1 milhão de gabardines. não dizer que vão para a Rússia. 21-7-68

O casal Patiño foi ao Hospital da Cruz Vermelha. Não falar da cor do automóvel nem do vestido da senhora. 21-9-68

Novas taxas sobre televisores. Em Lisboa não gostaram. Novos comentários terão de ser mais brandos e vão à CENSURA. 29-11-68

Importação de peixe – CORTAR. 19-10-68

Telegrama 140, da Reuter. Não aludir, no título, ao Partido Comunista Português, pois é coisa que não existe. 25-10-68

Congresso Republicano de Aveiro. Há uma mensagem de 56 trabalhadores e estudantes de Riba d’Ave. Trabalhadores e estudantes não podem aparecer juntos. Cortar os estudantes. 13-5-69

Final da Taça de Portugal (Benfica-Académica). Não falar em luto académico. 21-6-69

Não dizer, em título, que foi aprovada em Itália a lei do divórcio. dizer que foi apreciada. 28-11-69

Fotos de brinquedos de Natal, reproduzindo armas de guerra – CORTAR as legendas pacifistas. 14-12-69

Manteiga que vem da Roménia – pode dar-se. O que não pode é publicar-se que algumas toneladas ainda faltam e não se sabe de que país virão. 15-12-69

Comparação do rendimento bruto anual por habitante entre Portugal e a Suécia – CORTAR. No Instituto Nacional de Estatística morreu uma mulher a dias, que vivia miseravelmente – CORTAR. 11-7-70

Entrevista de Marcelo Caetano a um repórter do Globo, do Rio de Janeiro, josé Carlos Morais – NADA: nem que houve entrevista, nem resumo. É só para o Brasil. Morte de Georg Lukacs. Não pôr em título filósofo marxista. Filósofo pode sair, marxista não. 5-6-71

Título da Assembleia Nacional CORTADO: “Há mais de 40 anos que Portugal espera a Lei de Imprensa”. 31-7-71

Telegrama de Brasília. Actores deportados. Não se pode dizer, em título, que foram presos e espancados e que assinaram confissões à força. 28-8-71

Falta de açúcar granulado. diz-se que desapareceu de vários pontos do país – CORTAR. 31-10-71

Conferência de Imprensa do príncipe Filipe – MUITA CAUTELA. houve descontracção a mais. Um jornalista recordou-lhe que neste país havia certos condicionalismos, que não deixavam livres os assuntos – CORTAR. Sobre escândalos em Portugal, o príncipe perguntou se por cá não os havia. Ao responderem-lhe que não perguntou de que viviam então os jornais. Um jornalista respondeu que bastavam os escândalos lá de fora para preencher a lacuna… – CORTAR 6-6-73

PEDIDO a fazer a todos os jornais: o senhor deputado Ávila de Azevedo teve, na Assembleia Nacional, uma intervenção sobre os Açores e falou do apoio prestado pelos americanos a Israel, utilizando a Base das Lajes – NÃO REFERIR ESTA PARTE. 21-11-73

O Expresso saiu mais tarde e mandou para os jornais uma nota: que fora por motivos técnicos e não só – MANDAR essa nota pois aquela insinuação de ter sido por causa do EXAME PRÉVIO é para CORTAR.

Muitos mais exemplos haveria, mas acho que estes já nos dão uma ideia…

[1] – Exemplos retirados do manual “Iniciação ao jornalismo” de Victor Silva Lopes.

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