10 000 livros e eu saí de lá com uma revista de rádio!

Há uns tempos atrás, o Marcos e eu fomos ao Mercado da Ribeira, em Lisboa, onde existe um mercado permanente de livros usados e antigos. Já lá havíamos ido, mas um anúncio de stock renovado levou-nos lá novamente.
Devo dizer que me senti tentada com alguns livros, mas acabei por achar que não valia a pena trazê-los.

A certa altura da minha vida (ainda não tinha ligação à internet), questionei-me sobre o facto de ser quase impossível saber a programação da rádio. No jornal ou em certas revistas, vinha sempre uma secção com a programação da televisão, mas da rádio apenas a indicação do horário de um ou outro programa. Não me lembro de ver nunca a programação completa de alguma rádio.
Lembro-me que havia revistas dedicadas à televisão (os meus padrinhos amontoavam TV Guias), mas não me recordo de nenhuma revista dedicada à rádio.

Qual não é o meu espanto quando, quase no fim da visita, encontrei o segundo número de uma revista de rádio de 1945: Onda – Revista Mensal da Rádio!

Na capa pode ler-se:

Leia neste número:

A campanha contra o mau gosto: – abaixo a pirogravura da rádio! * A televisão como força para o bom entendimento internacional * A rádio e a imprensa * Fantasias infantis: filmes invisíveis de sons animados * As melhores palestras proferidas ao microfone – por Vitorino Nemésio, Diogo de Macedo e Luís Reis Santos
O diálogo “A Esfinge”, por Olavo de Eça Leal.

Preço 4 escudos

A revista abre com informação sobre a BBC e com a indicação da publicação ter sido visada pela Comissão de Censura:

E termina com “Emissões dos Estados Unidos em língua Portuguesa”:

A primeira folha da revista é dedicada exclusivamente a quatro anúncios publicitários:

* Saboía – Camiseiros do Chiado “Especializados em Camisas sob medida e Blusas de Senhora género «chemisier»

* Pathé * Baby Portugal, Lda. – Únicos especialistas em cinema de amadores

* Móveis e Decorações Olaio

* A Mundial, Seguros

A seguir está incluída uma folha solta onde a publicação lamenta o atraso deste segundo número, a que se segue a ficha técnica (inserida no início deste post) e uma reprodução de “Os três músicos” de Picasso.
Segue-se um texto de opinião não assinado (um editorial?), sobre “Este Vício tão Português…” (de dizer mal):

Sempre que alguém no nosso país tenta melhorar ou desenvolver determinada realização, é ecrto e sabido que surge logo uma nuvem de críticos, de dedo espetado e voz esganiçada, a apontar erros, a proclamar defeitos.

O texto defende a rádio, a propósito de uma carta que “um senhor professor do Cartaxo” endereçou a um diário da capital, criticando os programas da Emissora Nacional:

Não vale a pena reproduzir o documento. Vejamos apenas êste período que é a súmula da «crítica»: «só impera na organização dos programas alguma ignorância e até desconhecimento do que seja a verdadeira música». E, porque o senhor fala mais adiante em «batuque», parece dever concluir-se que pretende insinuar que a Emissora Nacional apenas transmite música de «jazz» e que essa música não é música, mas uma «porcaria repelente».

As três páginas seguintes completam-se com informação sobre dois concursos [“Um de carácter popular (…) outro de sentido cultural (…)] e de uma review por João de Freitas Branco sobre cinco concertos sinfónicos, levados a cabo pela Emissora Nacional no S. Carlos.

Para além dos artigos mencionados na capa, a revista conta ainda com os seguintes artigos:

* Vozes para a rádio – que questiona porque não são utilizadas mais vezes nas emissoras as vozes de actores do teatro e do cinema, citando alguns nomes desses mesmos actores “(…) revelações da rádio para o cinema, que o cinema deve pagar com a revelação de novas vozes para a rádio”.

* Um artigo sobre a Rádio Club de Moçambique

* Nunca a Rádio foi tão falada – assinado por Rodrigues Rocha

* Jazz – assinado por Joaquim de Macedo

* A Técnica e o Público da Rádio – assinado pelo Engº Vitor Veres, um artigo introdutório sobre esta secção da revista

Ah! Se o nosso receptor pudesse repetir aquêle pedacinho que perdemos, emquanto atendíamos alguém que nos interrompeu a escuta!…

* Posto de Escuta – artigo sobre emissões, frequências  e qualidade de audição de algumas estações

* Artigo sobre Henry Purcell

* Morfina tomada a horas certas Premeditadamente – assinado por Amadeu de Freitas, versa sobre propaganda e o papel da rádio na guerra, rematando com

E nós? Bem, nós somos um país neutral. Não podemos, nem devemos, como em Nova York, em Londres ou em Berlim, interromper os nossos programas de música de concêrto ou de jazz para transmitir notícias sensacionais, quantas vezes duvidosas. Claro, quando a notícia é de extraordinárias repercussões, – a tomada de PARIS, por exemplo – podemos dá-la fora da informação habitual.

A revista contém bastantes fotografias de diversas pessoas aos microfones da rádio, bem como de concertos, terminando com o «Guia do Ouvinte – Esquema do Novo Programa Tipo da Emissora Nacional» na contra-capa.

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