O "Amador de Livros" de José Pacheco Pereira

José Pacheco Pereira publicou no Abrupto um texto seu (saído no Público de 3 de Abril de 2010), intitulado O Amador de Livros perante as Bibliotecas a Morrer [1] que me suscita três sentimentos muito fortes.

O primeiro é o de total compreensão: os livros dão trabalho. Eu e o meu marido temos cerca de 1200 livros em casa, em seis estantes quase completas, e avaliamos em cerca de 1000 aqueles que ainda faltam vir de casa dos pais.
Não temos problemas com os insectos (ainda), mas o pó desespera: é uma luta inglória. E não basta limpar, há que abrir os livros de vez em quando. Não me refiro àquele hábito ou necessidade de os abrir para reler esta ou aquela passagem. Refiro-me a abri-los mesmo todos como parte da limpeza. Sim, porque se não forem abertos de vez em quando, os livros morrem. Começam a colar-se por dentro e aos poucos definham até…
Depois há que comprar estantes. Que são caras e quando não o são, há que considerar o peso.
Com o número crescente de livros, que vinham aos poucos de casa dos pais, decidimos voltar a comprar estantes. Encontrámos umas, baratas, mas relativamente decentes na Moviflor. Num fim-de-semana, fomos até lá de comboio (não temos automóvel). Depois de as ver perguntei ao sr. que nos atendeu se embaladas eram muito pesadas ao que o homem respondeu que não, “isto é levezinho”, ao que eu repliquei “então levamos duas”.
É claro que só uma pessoa alienada é que pode pensar que é perfeitamente normal levar para casa, de transportes públicos, uma estante debaixo do braço. Mas foi assim que eu e o meu marido fizémos, transportando, de comboio e depois meia-hora a pé, 18kg de madeira cada um. Os corpos juraram para nunca mais, mas não tenho a certeza de que o cérebro o cumpra.
(Era possível pedir na Moviflor o transporte, mas os custos eram enormes e nesse caso já não valeria a pena escolher aquelas estantes.)
Muitas vezes olho para as lombadas nas estantes e lembro-me que comprei aquele Penguin das Obras Completas de Saki, na Suécia, a um alfarrabista que só falava sueco e que por gestos me perguntou se queria um saco azul para o transportar e que guardo até hoje. Foi também quando estive na Suécia que um professor, que também gosta de livros policiais, me ofereceu o primeiro volume de uma colecção do McCall Smith e que eu continuei.
Aquele “The Lighthouse” foi o primeiro livro que li da P. D. James e comprei-o numa livraria enorme em Turku. Ao lado e da mesma autora, está o “Original Sin“, que o meu marido me trouxe da Grécia. Sei que levei esse livro para umas férias em Lamego, porque conservo dentro dele dois guardanapos de papel com desenhos, que uma amiga fez enquanto tomávamos café.
E o delicioso “Eats, Shoots & Leaves” comprei-o numa livraria em Tallin, onde era possível tomar café e almoçar.
Lembro-me também de como conheci a Agatha Christie. A filha da minha madrinha tinha alguns números da autora na colecção Vampiro Gigante, mas os livros suscitavam-me desconfiança com os revólveres e morcego na capa. Ela dizia-me que eram muito bons, mas eu hesitava. Até um dia, em que fui passar uns dias com eles à praia, lá me decidi a pedir-lhe um emprestado. Não me lembro qual foi, mas começou aí a minha colecção da Agatha Christie. Assim que devolvi o livro, pedi aos meus pais para me comprarem um. E quem olhar para colecção completa na estante consegue ver que o primeiro livro que tive dessa colecção foi o nº 6, por ser o que está mais usado. Nos anos subsequentes, tornou-se um hábito pedir aos pais para comprar um livro da Agatha Christie, durante dos dias de praia. Lembro-me que custavam 300 escudos e que com o tempo chegaram a subir até aos 600 escudos! Quem olhar novamente para a estante com a colecção completa, facilmente descobre os números seguintes que os meus pais me compraram, pelo uso. E também pode concluir que eu pedia os números mais volumosos (para a leitura durar mais tempo, que só muito mais tarde me atrevi a pedir um segundo livro nas mesmas férias).
O Eça foi descoberto numa capa vermelha com dourados em casa da minha ama, recheado de descrições do Egipto, mas foi só quando o encontrei jogado, literalmente, no parte de trás do carro do meu tio, e sobre o qual, uma prima mais velha, que seguia humanidades e tinha de ler o “O Crime do Padre Amaro”, me elucidou: “é uma seca!”, é que passei a ler as obras. E quando vi um CDROM com as obras completas, numa feira em Coimbra, não hesitei em o trazer comigo, apesar de já ter a maior parte das obras em livro.
Guardo com carinho a edição da Tinta da China de “O Vento nos Salgueiros“, pois foi o primeiro livro que li com outra pessoa: o meu marido.
E recordo, com frustração, ter encontrado a colecção completa das Vampiro Magazine, publicadas no anos 50, pelo conhecido Victor Palla, numa feira do livro em Lisboa e ter trazido apenas uma, que li de uma assentada a caminho de casa. Voltámos lá no dia seguinte para ver se encontravamos ainda as restantes, mas já não fomos a tempo.
E tenho tantas outras histórias de tantos outros livros que não cabem todas aqui…

E é daqui que me surge o segundo sentimento, o da tristeza de ver pessoas desfazerem-se de bibliotecas que herdaram. Pois que por várias vezes dou comigo a pensar que estes livros me hão-de sobreviver e interrogo-me que lhes fará quem ficar com eles? E dói-me pensar que venham a ser separados ou vendidos a peso.

Por fim, o terceiro sentimento que o texto de JPP me desperta é o da mais pura e verde inveja: a ele oferecem-lhe bibliotecas!

[1] via o FriendFeed de ovigia

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