Na net toda a gente sabe que és um deputado porque tu te identificas como deputado

Eu ainda pensei que a crónica do Paulo Querido, no Expresso, falasse do “julgamento da década”, numa área de tecnologia que hoje se configura como prioridade de Governos (influenciados ou não por grandes empresas), mas os critérios do Paulo ditaram-lhe que ele deveria falar do caso da semana.

Há algumas coisas com as quais eu não concordo nesta crónica. Um delas é que os jornalistas devam “maquilhar e compor”. Suponho que o Paulo defenda o “devem”, porque na crónica é dito que só não filtraria, o jornalista que se quisesse armar em esperto ou o jornalista que fosse de um outro partido contrário. Suponho ainda que o Paulo considere sinónimos “maquilhar”, “compor”, “mediar”, “filtrar”.

É certo que o jornalista deve filtrar e mediar, mas nunca “maquilhar” ou “compor”. Se tem interesse público, noticia-se, se não tem, deixa-se cair.

Vou dar-vos um exemplo de uma notícia que em determinadas circunstâncias deve ser noticiada e noutras não deve.

Numa aula de jornalismo, foi-nos dado o exemplo de uma notícia sobre o caso de um político com responsabilidades pela nação que tinha uma filha ilegítima e a questão era se a notícia deveria ou não ter vindo a público pelo jornalista.

Se nada mais fosse dito, obviamente, a notícia não deveria ser publicada. Os políticos têm direito à sua vida privada e os jornalistas precisam de traçar limites, filtrando o que tem interesse público do que não tem.

Acontece que o político em causa defendia acérrima e publicamente os “valores da família”, condenando as relações extra-conjugais, etc. Ora, um político não pode defender algo publicamente e depois agir de forma completamente contrária, pelo que neste contexto faz todo o sentido e é do interesse público que a notícia fosse publicada.

Ao ler a crónica do Paulo Querido fiquei com esta sensação de haver uma espécie de acordo entre políticos e jornalistas, que faz os primeiros sentirem-se à vontade para falar com os segundos, como se estes fossem companheiros de copos.

Eu já não acredito nos políticos, mas ainda quero acreditar nos jornalistas (apesar do que vou vendo por aí). Por isso não concordo com a perspectiva do Paulo, quando ele parece afirmar que um político pode dizer algo aos jornalistas, que não pode dizer no twitter, por aqui não haver jornalistas  “a mediarem, maquilharem, comporem.”

Concordo com o Paulo, quando ele fala em mudança de paradigma, mas parece-me a mim, e isto é meramente uma opinião daquilo que vou observando, que na web, as pessoas sabem que é público, mas não têm a noção do público.

Na web, não vemos o público constantemente, não vemos as pessoas que nos interpelam, não sabemos quem nos lê, não estamos num anfiteatro em frente a uma audiência e não estamos à frente de meia-dúzia de jornalistas que nos fazem perguntas.

É por isso que na web, principalmente em serviços mais ou menos utilizados de forma contínua, como o twitter é muito fácil, apesar de sabermos que é público, esquecermo-nos desse público. Afinal, ninguém consegue estar sempre a fingir.

Vou dar-vos outro exemplo que aconteceu aqui há tempos. Estou inscrita em várias mailling-lists que recebo no email. Algumas públicas, outras privadas. Numa das públicas, alguém resolveu fazer um post num blog sobre uma discussão que se estava a ter, citando um dos intervenientes devidamente e comentando.

Houve um pequeno escândalo na lista, que não era aceitável que se levasse para a blogoesfera o que era discutido na lista e que era caso de invasão de privacidade e etc. Eu não conhecia nenhum dos intervenientes e suponho até que nem conhecia ninguém nessa lista, mas a certa altura vi-me obrigada a chamar a atenção para o facto de aquela lista estar pública e por isso qualquer pessoa que nem sequer estivesse inscrita na lista poderia ver e consultar a lista.

Não acredito que haja políticos que digam coisas aos jornalistas que não queiram que se saiba, mas já considero a hipótese de haver políticos que digam coisas em serviços como o twitter, que não diriam perante um público, precisamente porque me parece que a noção de que temos um público se desvanece e não porque não haja jornalistas a “maquilharem”.

Entra-se com um login e uma password, vemos os que as pessoas escrevem, escrevemos, cria-se uma comunidade, somos todos amigos, fazemos uns encontros e esquecemo-nos que não sabemos quem nos lê, que temos um público que não estamos sempre a ver.

É claro que aquelas pessoas que precisam de construir uma imagem perante o público, devem pensar duas vezes antes de usar este tipo de serviço, e três sempre que o usam.

7 thoughts on “Na net toda a gente sabe que és um deputado porque tu te identificas como deputado

  1. É isso mesmo Paula.
    20% dos utilizadores que usam redes sociais cedem o seu logins e passwords de e-mail para que possam importar os seus contactos. Esses 20% sabem que lhe podem ler o e-mail e não se importam. Esses são os conscientes e que não se importam, aparentemente. Depois ainda há os inconscientes e pelos vistos ingénuos, também.

    Ou então, dará jeito passar essa imagem quando as coisas correm mal.

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  2. Eu concordo em absoluto com este post, mas o penúltimo parágrafo foi o que mais me chamou a atenção. Esse é um dos perigos da internet, mas que ninguém fala porque não é tão sensacionalista como ter os miúdos a ver filmes porno.

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  3. E eu digo isto, mesmo tendo conhecido a minha cara metade através da internet. Claro que a relação começou fora da net, mas esta foi um facilitador muito grande. Ainda assim, continuo a achar isto tudo perigoso. Hiperbolizamos-nos constantemente e raros são os casos de pessoas que “vendem” aquilo que são.

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  4. Paula, em lado algum do artigo se diz que os jornalistas devam maquilhar e compor. É a tua leitura — abusiva — da minha constatação acerca de isso acontecer. Lá porque acontece (e eu digo que acontece) não acontece por dever dos jornalistas, implícito, explícito, ou desejável.

    Os jornalistas DEVEM mediar o discurso. Faz parte do trabalho de filtrar o que é relevante. O uso de um palavrão ou expressão jocosa, por exemplo, deve ser mediado na maioria das situações, e não deve ser mediado noutras.

    Quem define quais são umas e quais são outras?

    O jornalista. Cabe-lhe analisar as situações e entender quando é que o uso de um palavrão (ou, frequente em certos círculos, de mau português) é relevante ou irrelevante para a notícia.

    Decorrem da prática continuada dos dois misters — o da política e o do jornalismo — hábitos de relacionamento. Não são fáceis de gerir. Não estou a dizer que deva ser assim — estou a afirmar que É ASSIM. É um resultado, não um ponto de partida.

    Esses hábitos de relacionamento incluem, muitas vezes, alguma confiança mútua. É com base nela que se conseguem tantas notícias. A menos que tenha fortes interesses, nenhuma fonte abre mão de informações facilmente.

    Imagino que nas aulas de jornalismo não se fale nisto.

    Não entendo essa não-naturalidade na aceitação dos verbos “maquilhar” e “compor”. A maquilhagem é parte integrante da publicação visual. A composição é um instrumento essencial da narrativa jornalística. Essencial e delicado. A palavra não é um exclusivo das zonas criativas e imaginativas. Há composição com rigor interpretativo. Sendo o exemplo óbvio a passagem do discurso oral à explanação escrita — uma prática tão corriqueira no dia a dia de 1 jornalista da Imprensa que até nos esquecemos disso.

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  5. Paulo, lamento que considere que a minha leitura é abusiva, expliquei a minha interpretação no segundo parágrafo deste post e afirmei que eu supunha que o Paulo defenderia o “devem”. É uma suposição que me ficou da leitura, mas explico melhor agora:

    O Paulo diz que “no antigamente”, (…) “os jornalistas filtrariam o discurso, de forma automática. Claro que há sempre o risco de alguém se armar em esperto: calculo em 1 em 25 as probabilidades de um neófito desejoso de aparecer ou um de cor política diferente lhe passar a rasteira e apresentar a frase ipsis verbis.”

    e a seguir
    [Pedro Duarte] “Não tem os jornalistas a mediarem, maquilharem, comporem.”

    Da crónica infiro que o Paulo utiliza os termos mediar, maquilhar, compor, filtrar como sinónimos. Não os distingue. Suponho também que defende o filtrar, mediar, maquilhar, compor (utilizados como sinónimos nesta crónica) porque o Paulo faz uma descrição negativa do jornalista que não filtra (não medeia, não maquilha, não compõe): “alguém se armar em esperto”; “neófito desejoso de aparecer”; “um de cor política diferente lhe passar a rasteira”.

    Também no post digo que o jornalista deve filtrar e mediar, só que não concordo que deva “maquilhar” ou “compor”.
    É que “maquilhar” pressupõe embelezar, mascarar ou disfarçar e ao usá-lo como sinónimo de compor, infere-se que compor se refere a “melhorar”.

    Ora filtrar e mediar, funções do jornalista, referem-se a escolher o que é interesse público do que não é, significa estar entre a fonte e o público.
    Ora se um jornalista filtra uma informação A e decide que ela é do interesse público, não deve embelezá-la ou melhorá-la. Actos que pressupõem uma transformação intencional da informação.

    É óbvio que a “transformação” ocorre sempre. Dois jornalistas que assistam ao mesmo acontecimento poderão fazer leituras diferentes. Mas isto é muito diferente de “maquilhar” ou “compor” uma informação.

    Há sempre uma transformação da informação, e isso é natural, a questão é que eu acho que ela não deve ser intencional (maquilhada, melhorada).
    Se não tem interesse público, filtra-se, não se publica, se tem interesse público, não se maquilha, não se embeleza, não se melhora, publica-se.

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  6. Para sermos rigorosos, isto não é propriamente uma opinião minha, quando muito poderá vir a revelar-se um erro de interpretação, da minha parte, de um texto.

    Se um autor faz uma comparação dizendo que antigamente, havia jornalistas a filtrar e agora não há jornalistas a mediar, maquilhar e compor, o leitor deduz, por via da comparação feita, que estes vocábulos estão a ser utilizados como sinónimos. De onde, quando o autor descreve negativamente o jornalista que não filtra, o leitor deduz que isto se aplica também ao jornalista que não medeia, não maquilha e não compõe.

    Tendo em conta que foi feita uma descrição negativa do jornalista que não filtra, e portanto no texto, não medeia, não maquilha, não compõe, o leitor conclui que o autor defenda que o jornalista deve filtrar, mediar, maquilhar e compor.

    Queria fazer aqui uma ressalva, que já deveria ter feito aquando do seu anterior comentário. As minhas aulas de jornalismo já foram há muito tempo, mas tive excelentes professores, pelo que não é justo deixar aqui qualquer dúvida a esse respeito.
    Todos eles ensinaram que a função do jornalista é filtrar, mediar, mas nunca nenhum disse que enquanto jornalistas deveríamos maquilhar ou compor.

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