É mesmo verdade: eu e o Marcos não temos televisão

(Antes que alguém se lembre: e não precisamos nem sentimos falta de televisão)

Hoje preguei um susto num moço da netcabo (penso que era da netcabo), que vocês não imaginam. Tocaram à campaínha e eu, que não esperava ninguém, perguntei quem era. Responderam que era da netcabo, ouvi a vizinha a falar e espreitando pelo “olho mágico” (?) verifiquei a pessoa com a identificação.

Aqui há tempos, eu e o Marcos chegámos a casa e encontrámos preso na porta um panfleto da netcabo (acho). Fiquei irritada. Fiquei irritada porque alguém do prédio abriu a porta a uma pessoa para fazer publicidade. Fiquei irritada porque não admito publicidade no meu email, correio ou telemóvel, quanto mais na porta da minha casa.

De forma que decidi abrir a porta e explicar tudo isto muito bem ao senhor.

Assim que abri a porta, o moço, sem me deixar falar, cumprimentou-me logo, identificou-se e perguntou que serviço de televisão eu tinha (netcabo, cabovisão, não sei se disse mais algum)

Eu respondi-lhe que não tinha.

Ele: Não tem serviço de televisão?

Eu: Não. Não vejo televisão

Ele (meio assustado, meio desconfiado): Mas não tem televisão?

Eu: Não

Ele (meio atordoado): Mas nem os quatro canais?

Eu: Não, nem os quatro canais. Não tenho televisão, não tenho serviço nem mesmo o aparelho televisor.

Mais ou menos a meio deste diálogo vejo uma rapariga a espreitar e a olhar para mim como se de um bichinho exótico e raro se tratasse. Trazia na mão livros, cadernos e estojo e devido à semelhança com o moço, deduzi que talvez fosse a irmã que o acompanhava, não se mostrando para não intimidar as pessoas que abrem a porta. Não deve ter resistido🙂

Ele: Então não vê televisão…

Eu (cada vez mais divertida) : Não. Ouço rádio.

Ele: Isso é pouco habitual, na sua idade, não ver televisão (eu acho que ele me estava a chamar velha😛 )

Eu: Pelo contrário, as pessoas da minha idade consultam a internet. Sabe que as notícias quando dão na televisão já chegam velhas (sou tão mazinha)

Ele: Ah tem internet. Sapo?

Eu: Não

Ele: então só pode ser Clix

Eu: Não. (O moço parecia aflito, de forma que eu senti-me na obrigação de lhe explicar que tinha kanguru)

Ele (com ar de quem está a responder a um professor, não se lembrando imediatamente da resposta, mas afiançando que a sabe): Ah então está a pagar… ora deixe ver, eu sei, 30 euros ou 40 euros (não sei se foram mesmo estes valores – eu acho que os obrigam a decorar os preços da concorrência)

Eu: Não. Estou a pagar 22 euros. O mais baixo.

Ele: Mas com a netcabo pode ter televisão, 18 canais, telefone e internet por apenas 29 euros. (explicou ainda que era obrigatório ter telefone ou algo do género)

Eu: Sim, mas eu não uso telefone, tenho telemóvel e não vou mudar e também não vejo televisão, donde eu ía pagar 29 euros pela internet e eu já tenho internet a 22 euros…

Ele: Mas assim ía ter televisão. 18 canais.

Eu: sim, mas eu não vejo televisão, nem sequer tenho o televisor e mesmo que tivesse o serviço não ía usar…

A seguir pede para deixar um panfleto com os preços e contactos. Ao que respondi que não valia a pena, que não estava interessada num serviço de televisão e que teria de me desembaraçar do papel, o que seria aborrecido. Afinal uma pessoa não pode simplesmente deitar um papel para o lixo e eu não queria ficar com mais uma parte de alguma árvore na consciência.

Despediu-se e agradeceu. Fiquei com pena do moço e ainda murmurei um “desculpe…”, como quem diz “desculpe não ver televisão”

23 thoughts on “É mesmo verdade: eu e o Marcos não temos televisão

  1. Já agora, qual é mesmo o motivo para não veres televisão? Falta de tempo? É que falta de tempo temos todos, e tenho alguma dificuldade em acreditar que não haja disponibilidade para ver uns minutos que sejam. Também eu leio (2 livros por mês), ouço rádio, vou ao teatro (estou de saída para lá daqui a 1 hora), e em alguma circunstância vejo televisão. Seja noticiário, filmes, documentários, etc.

    Qual é mesmo o activismo político por detrás de não veres televisão? Não estou a ser sarcástico, meramente curioso.

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  2. Mário: Estás a ser sarcástico, ainda que não o queiras porque tens o preconceito de pressupor que o facto de eu não ver televisão tem a ver com activismo político. Logo eu, que não sou política, nem pertenço a nenhum partido político😛

    Mas respondo sim. Se acompanhas o blog, sabes que me casei há pouco tempo. Ora, o meu marido não tinha televisão e tendo em conta que em casa dos meus pais, eu raramente via televisão, nem eu, nem ele achámos necessário gastar dinheiro com um televisor.
    E sinceramente não vou comprar um televisor mais subscrever um serviço para ver uns minutos de televisão.

    Quanto aos livros, prefiro-os, é certo. Se não contarmos com os que leio para a tese, já li este ano 10 livros, o que dá uma média de 5 por mês.
    Anoto numa agenda os livros que compro (obrigo-me a comprar menos de 60 por ano) e que leio (tenho de ler o dobro do que compro).
    Infelizmente, já vou nos 23 comprados (a culpa é dos alfarrabistas e feiras fim de edição que há por Lisboa), pelo que não estou no bom caminho para cumprir tal resolução…

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  3. Mário: Eu vivi em três sítios antes do sítio onde vivo agora, sempre sem televisão. Estou habituado, não lhe sinto falta. Mas antes disso – e isto sim é uma história gira – vivia em Coimbra (onde vivi durante 6 ou 7 anos) e lembrei-me uma vez de comprar uma TV. Não foi o espaço que passou a ocupar na sala que me incomodou, nem o preço que dei por ela. Foi a clara sensação de “para que é que eu comprei isto?” que às vezes tinha quando alguém lá em casa dizia “ah, mas tu tens televisão!” e eu reparava que tinha aquilo para nada, não lhe dava uso nenhum. Podem ter sido mais, mas só conto quatro vezes que liguei aquela televisão, o que deve dar uma média de uma vez por ano (desde que a comprei). A primeira vez que a liguei foi quando a comprei.

    Sendo assim, para que quero eu ter uma televisão? Compro mais um móvel para a por na sala, e fico com um espaço qualquer inutilizado na sala? Para quê, se não a vou ligar?

    Triste mesmo é teres considerado que a coisa tinha de ter um “motivo político” por detrás…

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  4. gauthma says:

    Eheh afinal não sou o único!😉 E razão é mais do mesmo: ao longo dos últimos anos o uso que ia dando à que tinha foi sendo cada vez menor, até quando mudei de casa também acabei por achar que o espaço podia ser melhor empregue.

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  5. Nuno says:

    Pois eu sou ainda mais “alternativo” que V.Exas.🙂
    Para além de possuir TV, eu gosto imenso de ver programas de televisão.

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  6. Eu também faço parte do grupo que não vê televisão. Nenhum dos quatros canais tem nada que me interesse, ou que não possa ver antes pela internet.

    Depois a televisão que tenho de momento na minha sala é mais pequena que os meus monitores, logo ganho mais em ver no computador directamente, embora tenha cabo caso queira ir para o sofá.

    Já os meus pais não querem ter de procurar conteúdos e preferem ver o que calhar. São atitudes diferentes, e pessoalmente prefiro a nossa que sempre é mais crítica e isenta.

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  7. Anonymous Coward says:

    ” eu não queria ficar com mais uma parte de alguma árvore na consciência.” LOL – Vindo de alguém que gosta de comprar livros, a consciencia deve tar pesada… Espero então que ja tenhas encomendado um kindle.

    Bem, hoje em dia vê-se cada vez menos TV. A net já tem tudo, desde séries a notícias de ultima hora.

    Eu gostava era de saber qual o tarifário de net que têm.

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  8. Oh Marco, conhecendo como vos conheço, não me admiraria nada que fosse devido a uma qualquer extravangância ambientalista.

    Apenas mandei a minha provocaçãozinha.. tinham saudades, não tinham?😉

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  9. Eu também me insiro do grupo que não vê televisão. Tudo começou quando entrei para a universidade e me mudei para Braga, aos poucos e poucos fui deixando de ver e não sentia falta nenhuma. Os amigos que moravam comigo tinham televisão porque gostavam de ver futebol, fora isso também não perdiam muito tempo a ver (havia um que gostava de novelas, mas isso é outra história). Resumindo, uma das principais razões de não ver televisão prende-se ao facto de conseguir aceder aos seus conteúdos na internet, nomeadamente notícias, séries, e outra grande razão é também a internet me possibilitar a selecção ou a filtragem de conteúdos, ou seja, escolher o que ler/ver quando quiser e puder, no fundo mais liberdade.

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  10. Hmmm…

    Eu vejo televisão. Não vejo muita, mas vejo! Seja na ‘net seja no ecran do computador, através da TVCabo ou dos sites das operadoras de TV.

    Vejo, principalmente às horas das refeições (sou altamente conservador nesse aspecto, gosto de horários para me organizar), porque serve de companhia – gosto do barulho de fundo, irrita-me solenemente as teorias dos coitadinhos (jornalismo à lá 24 horas/correio da manhã/TVI), mas gosto do barulho de fundo e sinceramente vejo as barbaridades ali. Deixo a ‘net para coisas bem mais construtivas.

    Cumpz!🙂

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  11. Já passei por situação semelhante. E, sim, tb olharam para mim com um ar atarantado quando lhes disse que não tenho televisão (o q não é totalmente verdade) e que utilizo essencialmente a internet (até porque posso aceder aos noticiários por lá, se me apetecer).

    Por acaso até tenho televisão, que utilizo de forma pouco comum. É bastante boa, e nela vejo os meus filmes e séries de eleição (acabei de ver recentemente o “Laura” do Otto Preminger), que nunca são os disponibilizados pelos serviços televisivos. Tenho tb um excelente leitor de DVDs multiregião e DIVX (essencial para as minhas necessidades).

    Quanto aos canais (só acedo aos 4 de sinal comum), ao fim do mês nem uma hora devo ver. Contudo o meu filho gosta dos desenhos animados.

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  12. Outra nota, Paula, semelhante à do teu post (i.e., hábitos estranhos).

    Há algum tempo passou aqui por casa uma senhora que fazia uma estatística sobre hábitos de leitura. Perguntou quantos livros eu comprava/lia por ano… Eu disse que, entre ficção e não ficção, deveriam andar por volta dos 75 (fora artigos). Havias de ver a cara dela! O_O

    Cá em casa até o meu filho anda uma marabunta de livros: por volta de 5/6 por semana (banda-desenhada e pequena ficção para c. de 8 anos de idade) via biblioteca de Loulé.

    Bendita biblioteca que me poupa um dinheirão!

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  13. Anonymous Coward: Ora, nem me lembre disso! É exactamente essa a razão pela qual tenho de ter cuidado com todos os outros papéis. É que com os livros não dá, não é possível resistir.
    O café, por exemplo, andava a tomar vários por dia, comecei a sentir-me mal e disse que não, que passaria a dois e depois a um e pronto consegui. Mas se encontrar uma vampiro magazine que ainda não tenha, só não a trago se não tiver os 4 euros :-S

    O kindle… é verdade que tenho vários livros que quero ler em pdf, mas o kindle não me resolveria todo o problema. Tenho muitos livros dos anos 30, 40, 50, 60 que já quase não se arranjam em papel e que ninguém os vai digitalizar ou re-editar…
    Eu nestas coisas sou um bocado tótó: livros, cds, dvds, os meus preferidos são de autores que já cá não estão. O que tenho mais de música é jazz e olhando assim por alto parece-me que o único cd de jazz que eu tenho cujos autores estejam vivos parece ser o Hugo Alves Taksi Trio, do resto quem os fez já não faz mais nenhum.
    E isso é um problema, porque nem sempre as editoras acham pertinente re-editarem as coisas noutros formatos.

    Tarifário de net: kanguru móvel – 1g – pago 22 euros por mês – acho que é o tarifário basic.

    É fixe ver que há pessoas que também não vêem, é que ontem, perante a reacção do moço, senti-me mesmo como se fosse esquisita🙂
    Não ver televisão já se tornou habitual, o que não quer dizer que faça um esforço para não ver. Lembro-me que o ano passado, eu e o Marcos estivémos uns dias em casa dos pais dele e na cozinha havia uma televisão que ligávamos enquanto fazíamos o jantar. Aqui habituei-me a ligar o rádio. Descobri uma rádio aqui em Lisboa chamada Europa (90.4) que costuma passar muito jazz🙂

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  14. MJ Valente:🙂 que fixe, lá “estragaste” a estatísticas🙂
    Agora fizeste-me lembrar as bibliotecas por onde passei. Comecei a usar as bibliotecas das escolas desde a primária (costumava receber um livro no final do ano por ser uma das maiores leitoras), no ciclo, a biblioteca não era muito fixe, a escola era recente e a biblioteca pequena. Mas quando entrei no 7º ano! Ah, foi o delírio. Fiz o secundário na Brotero em Coimbra, escola antiga com uma biblioteca numa sala grande toda forrada a madeira, com enormes mesas e estantes até ao tecto e escadas que corriam ao longo das estantes com rede por onde se viam os livros. A decisão foi muito simples: começar numa estante e levar o resto a eito🙂
    Não, não li a biblioteca inteira🙂 não consegui :-S

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  15. Ah, as bibliotecas.🙂 Tenho uma paixão avassaladora por elas.

    Quando estava no colégio (sim, andei num daqueles de freiras até ao 9º ano) comecei a frequentar assiduamente a biblioteca. Ao ponto de tb estragar as estatísticas por lá. Existiam uns gráficos que eram fixados à porta da biblioteca todos os meses, com o registo dos livros requisitados. Lembro-me de estar no 8º ano e o gráfico representar esse ano como o que mais leituras tinha no mês. Junto à coluna do 8º ano tinha tb um asterisco… invariavelmente a nota do asterisco dizia: “apenas uma leitora”.

    Fiquei catalogada como cromo das leituras ou biblioteca ambulante.😛 Mas, na realidade, não me importei muito com o facto. Os livros eram mais importantes e eu já tinha esgotado os que tinha em casa.🙂

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  16. brecke says:

    Eu “uso” a televisão mas não “vejo” televisão. Vejo séries e filmes e DVD’s ou ligando o computador ou através da PS3 (para quando um novo mac mini!!?). Também ligo para ouvir música.

    Notícias, artigos, geekices etc, tudo pela net.

    _ miguel

    PS. E sim, a biblioteca de Loulé é altamente, wireless e tudo!🙂

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  17. Não vejo absolutamente nenhuma televisão, nem faço ideia que canais tenho (tenho Netcabo, para ter o servidor em casa, já que quase nunca muda de IP). Mas tenho televisão na mesma, porque gosto de ver DVDs e o ecrã de qualquer computador é ridiculamente pequeno. E há as consolas.🙂

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  18. É bom que os senhores dos “serviços de TV” se comecem a habituar a esta resposta ou “redução gradual de serviços”.

    Cada vez mais, a solução passará por termos TV, sim, mas ligada a um media center ou um computador que nos permita ver o conteúdo que desejamos.

    Ou então, ter simplesmente leitor de DVD ou Blu-ray, para o mesmo efeito.

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  19. TV?

    Entre continuar a fumar e a ver TV prefiro deixar a TV.

    NB: Só fumo frente a um monitor.

    Mentira …

    parabéns pelo Blogue

    Economia solidária: isso não passa na TV

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