Stallman

A entrevista ao Stallman no Guardian provocou bastante celeuma entre aqueles que julgaram que o sr lhes estava a chamar estúpidos. O que não é verdade.

É muito diferente dizermos “isto é uma estupidez” de dizer “você é um estúpido”, embora às vezes apeteça usar esta última em vez da primeira. Aliás, a segunda pode dar direito a processo por difamação, enquanto que a primeira não. Vêem a diferença?

Obviamente, o sr Stallman tem razão.

Eu uso várias aplicações web. E estou consciente do risco. Aliás, o sentido nesta Web 2.0 está completamente errado. O utilizador deveria ter as coisas no seu computador e passar para a web o que quisesse, em vez daquilo que a Web 2.0 promove: colocar tudo na Web 2.0, muitas vezes sem ter as coisas no próprio computador.

Porque a Web 2.0 é sobre partilha, não é? Portanto eu coloco na Web o que eu quero partilhar. E apenas o que quero/posso partilhar. Mas a web não é minha pois não?

Mas há vários problemas. E o problema de que o sr Stallman fala é também o problema do software proprietário de desktop, é o problema do DRM e é o problema dos Terms of Service (em breve, post sobre isto).

O homem tem razão! Sempre que vocês colocam conteúdo em sistemas proprietários ou sempre que vocês compram conteúdo trancado, vocês estão a arriscar-se a ficar sem esse conteúdo (quer ele seja vosso, criado por vós, ou quer o tenham comprado) ou a verem-se obrigados a investir cada vez mais nesses sistemas. Lembram-se do post em que citei Cory Doctorow?

Vocês podem dizer “Ah a Apple nunca iria fechar a loja iTunes”. É possível. Mas a Wal-Mart vai encerrar os seus servidores de DRM. Se vocês tiverem comprado 30G de música à Wal-Mart, aquilo que têm de fazer agora é gravar 30G de CD e ripá-los novamente, contornando o DRM (o que é ilegal, mas que a Wal-Mart aconselha!!!) ou… ficarem sem esses 30G de música.

O problema dos sistemas proprietários é que a empresa pode decidir “vamos acabar com o Microsoft Office” e nem sequer vos dar hipótese de recuperarem os VOSSOS conteúdos. Nem se responsabilizarem por isso.

Vocês podem dizer que não se importam, que correm o risco (vêem? é um risco, tal como os compradores de música à Wal-Mart correram). É justo. Mas isso não retira nada à razão que o sr Stallman tem. Nada.

Ao contrário do que fez Stallman, que considerou o cloud computing (um acto) uma estupidez, os detratores não tiveram pejo em chamá-lo de estúpido (lembram-se da diferença ali em cima?), assim directamente.

E no link anterior, o autor vai ainda mais além dizendo:

This is one of the things I’m not happy with GPL. They claim it’s totally free, but it isn’t. If you want to make any change to it, you have to make those changes available to everybody

Eu poderia dizer-vos que esta é a base do Software Livre e que é por causa disto que o Software Livre se mantém Livre e evolui, porque é assim mesmo.

Mas vou dizer outra coisa. Isto é também um simples acto de amabilidade. Se me dão um programa livre e eu melhoro esse programa, é mais do que justo devolver as melhorias às outras pessoas.

Essa cláusula existe porque há pessoas que acham que podem ir àquela floresta, que é de todos, cortar 10 000 árvores e acharem que não têm de plantar nenhuma. Aqueles que melhoram o software livre e não repartem com os outros essas melhorias estão a cortar árvores que são de todos sem as substituir ou darem algo em troca do que levaram.

Por isso, digam que não se importam com software proprietário, web apps com licenças aberrantes ou DRM, mas não digam que o sr Stallman não tem razão, porque em última análise, ele tem. Vocês é que podem não se importar com isso, mas, hey, o risco é vosso.

E esperemos que as pessoas por detrás dos sistemas proprietários (web-based or not) sejam tão boazinhas como vocês acham que são.

24 thoughts on “Stallman

  1. Mas há vários problemas. E o problema de que o sr Stallman fala é também o problema do software proprietário de desktop, é o problema do DRM e é o problema dos Terms of Service (em breve, post sobre isto).

    Aconselho a leitura da política de privacidade do DropBox. Quando a li, ia-me dando um fanico. Eles reservam – ou reservavam, na altura em que a li – o direito de vender toda a informação que têm sobre os utilizadores, e até os ficheiros, se tal for necessário para conseguirem uma injecção de capital. Isto é mais que absurdo.

    Ao contrário do que fez Stallman, que considerou o cloud computing (um acto) uma estupidez, os detractores não tiveram pejo em chamá-lo de estúpido (lembram-se da diferença ali em cima?), assim directamente

    São jovens que ainda vivem na ilusão de que podem ser o próximo Bill Gates…

    Eu poderia dizer-vos que esta é a base do Software Livre e que é por causa disto que o Software Livre se mantém Livre e evolui, porque é assim mesmo.

    Mas vou dizer outra coisa. Isto é também um simples acto de amabilidade. Se me dão um programa livre e eu melhoro esse programa, é mais do que justo devolver as melhorias às outras pessoas.

    Essa cláusula existe porque há pessoas que acham que podem ir àquela floresta, que é de todos, cortar 10 000 árvores e acharem que não têm de plantar nenhuma. Aqueles que melhoram o software livre e não repartem com os outros essas melhorias estão a cortar árvores que são de todos sem as substituir ou darem algo em troca do que levaram.

    É a base da vivência em comunidade. Dá-se e recebe-se. Mas há sempre pessoas que gostam de receber e não gostam de dar.

    Eu também foquei este tema, mas de uma forma muito menos eloquente. O Stallman é polémico e não parece ter problemas com isso (não que haja problemas em ser assim). E, desta vez, tocou num ponto nevrálgico para os geeks: o hype das web apps. Eles viram a sua moda ameaçada, começaram logo a espumar pela boca. Mas o raio é que o Stallman tem razão, por muita choradeira que estes geeks façam.
    Eu uso o Gmail e estou ciente de que a minha correspondência não é minha (foi com essa ideia que fiquei quando li, um pouco à pressa, os termos de serviço). Na altura em que criei a conta, já lá vão quatro anos, pelo menos, não tinha noção disto. Agora que tenho, não deixo de ficar um bocado preocupado.

    Um dos grandes desafios para a comunidade, neste campo, vai ser criar uma ou mais formas de permitir que os utilizadores tenham total controlo sobre os dados que enviam para um servidor de terceiros, e permitir que eles possam exercer as suas liberdade online. Eu acredito e estou confiante que isso vai ser feito.

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  2. É verdade, goste-se ou não, o Stallman tem toda a razão.
    Tenho um post a meio, especificamente sobre Terms Of Service, como estão a ser usados, o que podemos fazer e se é eficaz, com exemplos e tudo. A ver se o consigo acabar em breve.
    Este saíu-me, assim de repente, como um desabafo🙂

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  3. Paula, claro que quem obtem beneficios por usar o OpenSource, o deverá retribuir (eu próprio faço, sempre que me é possível), mas a GPL torna isso obrigatório no caso de querer distribuir uma versão modificada.

    Pessoalmente para os meus projectos que lanço livremente, não quero saber se as pessoas quiserem começar a vender aquilo com alterações. E a licença que eu uso dá mais liberdade aos utilizadores que a GPL. Dá-lhes o direito de transformarem Software Livre em Proprietário. E ao contrário do senhor Stallman, eu valorizo esse direito.

    Em relação a usar webservices, é claro que se tem consciência dos perigos que é ter a informação num servidor de uma empresa. Por isso é que dados sensíveis, mantenho em servidores meus. E não é por isso que não uso serviços ditos web2.0.

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  4. Continuo convencido que o Alcides não percebe a diferença ente software livre e Open Source. O software para livre tem de ter o sou código sempre disponível, em todas as formas. Se comercializas uma forma alterada de um programa, estas a distribuir esse programa também. E se o estas a fazer sem dar o código, então esse programa não está livre. Se isso não é conveniente para os adeptos do software proprietário? Tanto melhor: a ideia é mesmo a de que o software deve ser livre, e não proprietário. Podes gostar ou não, não podes é ter ambas as coisas.

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  5. Victor says:

    “Tanto melhor: a ideia é mesmo a de que o software deve ser livre, e não proprietário.”

    Pelo menos o Alcides aceita a existência dos dois, tu é que não… e sempre achaste que quem não pensa como tu está errado… só tens de começar a aceitar as diferenças também no sw…

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  6. Victor: se não é para argumentar de forma honesta e racional, é melhor estar quieto. Argumentos similares a “eu não gosto do Stallman porque eu acho que ele se veste mal” ou “tu não tens razão quando dizes que o céu é azul porque não aceitas a opinião dos outros” não são argumentos que dignifiquem ou acrescentem coisas a esta discussão.

    Relativamente à liberdade, tenho uma coisa para dizer e vou responder directamente ao Alcides:

    O problema aqui é que estás a considerar o conceito de Liberdade como “liberdade total”, qualquer coisa como “eu posso tudo”

    Mas estás a esquecer-te que esta definição de “liberdade total” não existe.

    Repara: a tua liberdade (e de qualquer outra pessoa) acaba no preciso momento em que ela colide com a liberdade de outra pessoa.

    Vou dar-te um exemplo, exagerado, para que percebas bem o que eu quero dizer:

    Tu, Alcides, não tens liberdade para tirar a vida a outra pessoa.

    Eu tenho a certeza que não te passa pela cabeça dizer que isto é uma restrição das tuas liberdades, nem que vás andar aí a clamar pela “liberdade” de tirar a vida a uma pessoa. Porque isto colidiria com a liberdade que essa pessoa tem de viver.

    Vamos à tua licença: Antes de mais, a tua licença não existe. O software livre tem uma licença que não permite a sua transformação em software proprietário, pelo que se a tua licença o permite, não estás a falar de software livre, podes estar a falar de software sem licença ou com outra licença, mas não estás a falar de software livre.

    Mas vamos supor que sim, que fosse possível transformar software livre em software proprietário.

    A tua licença, Alcides, nestes termos, não dá, nem nunca poderia dar mais liberdade aos utilizadores que a GPL.

    Porquê?

    Porque no exacto momento em que transformasses software livre em proprietário, se tal fosse possível, estarias a retirar a liberdade de todas as outras pessoas de utilizarem, modificarem etc o tal software livre.

    Eu compreendo que tu estejas a ver isto apenas do teu ponto de vista e que aches até que a tua liberdade de querer transformar software livre em proprietário seja mais importante do que a liberdade de milhares de pessoas de continuarem a usar esse tal software livre.

    Mas as coisas não funcionam assim, porque como te disse no início, a tua liberdade acaba quando ela restringe a liberdade das outras pessoas.

    A tal licença com a qual tu não concordas é a razão pela qual existe software livre. E mais, é essa licença que garante que o software livre seja sempre livre.

    E ainda mais, é essa licença que garante que todas as pessoas tenham sempre a liberdade de usar, modificar etc o software livre e que essas pessoas nuncam venham a ser privadas dessa liberdade.

    Porque, Alcides, se tu tens liberdades, as outras pessoas também as têem.

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  7. Alcides: Já agora e relativamente a isto que disseste:

    “Em relação a usar webservices, é claro que se tem consciência dos perigos que é ter a informação num servidor de uma empresa.Por isso é que dados sensíveis, mantenho em servidores meus”

    Basicamente foi isto que o Stallman disse, apontado a “estupidez” de colocarmos os nossos dados e conteúdo em perigo.

    “The 55-year-old New Yorker said that computer users should be keen to keep their information in their own hands, rather than hand it over to a third party.” – Guardian

    Afinal, porque é que ele é estúpido?

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  8. Victor says:

    Paula, acho engraçada a tua argumentação, mas como disse de forma telegráfica no comentário anterior, todos sabemos e conhecemos a definição de software livre, e pelo menos no meu caso e pelos vistos o Alcides também achamos que se a GPL desse a liberdade total era ainda mais livre. Pegando na tua argumentação, sobre a liberdade total, é verdade para muitas coisas naturlamente, mas não há razão nenhuma para que neste caso não possa haver liberdade total, e a prova é que existem licenças bem menos restritivas do que a GPL.

    E o que eu estava a dizer era que não me faz nenhuma confusão que exista a GPL, é apenas mais uma licença que tem os seus méritos, mas que posso bem não escolher para usar nos meus projectos, só isso, e claro que os meus projectos não são melhores nem piores só porque não escolho a GPL, e não havendo razões muito particulares ou especificas não deveria ser um critério de selecção de software, isto é que não percebes e com o qual não concordas, por isso é que o sw não é um religião…

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  9. Agora eu consigo perceber qual é a sua opinião. E assim posso responder conforme.

    Obviamente, que o Software livre não é uma religião. O Software Livre é software, que tem associado um conceito. Aquilo a que vocês normalmente chamam-se de fundamentalismo, é coerência, que é algo que vocês não têm (em breve post sobre isto)

    Vamos à opinião.

    A Licença de Software Livre dá:
    – a liberdade de usares o software
    – a liberdade de veres e alterares o código
    – a liberdade de redistribuires
    A única coisa que tens de garantir é que quando redistribuis, tens de dar estas liberdades a todas as outras pessoas.

    Se existisse a vossa licença, no momento em que alguém a usasse para criar software proprietário:
    -deixava de ter a liberdade de usar o software ou usá-lo-ía apenas sob as vossas condições
    -deixava de ter liberdade de ver o código e alterá-lo
    -deixava de ter liberdade para o redistribuir

    Podem não extistir todas, mas para ser software proprietário, tem de obedecer pelo menos a uma.

    Acham mesmo que esta segunda (e vossa hipotética) licença é mais livre do que a primeira?

    Aquilo que a GPL diz é o seguinte: tu tens liberdade para fazer tudo o que quiseres, a única coisa que não podes fazer é restringir a liberdade dos outros.

    Tu podes fazer tudo o que quiseres com o software, mas quando ele sair das tuas mãos para outras pessoas, essas pessoas têm de ter as mesmas liberdades que tu tiveste com esse software.

    Vocês podem espernear, inventar situações o que quiserem, mas não há nada mais livre do que algo que diz que os utilizadores têm todas as liberdades relativas a um software, excepto a restrição dessas liberdades. Porque é isto que garante que esse utilizadores vão ter essa liberdade para sempre!

    Não há nenhum software proprietário que dê maior liberdade ao utilizador que o software livre (por definição), a partir daqui não é possível ter uma licença mais livre do que a do software livre!

    Eu já vos falei do conceito de liberdade, já vos falei do respeito pelo outro, já vos falei de software, já vos comparei as licenças, se depois disto vocês não não compreendem o que eu estou a dizer
    eu só posso concluir que vocês estão a ler o texto, mas não estão a consegui-lo interpretar.

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  10. Victor: estás a julgar as minhas opiniões sem fundamento. Afirmas que não aceito diferenças de opinião, o que não justificas e acusação que rejeito, e extrapolas que não aceito que haja software com modelos de licenciamento, o que também é errado. O meu comentário está contextualizado, e nele explico a liberdade do software, e porque é que a cláusula da GPL citada pelo Alcides é uma garantia de Liberdade e não uma restrição dela. O Alcides é livre de escolher a licença que quiser para o seu software, livre para preferir a GPL ou outra licença. Nunca puz isso em causa. Que ele não se importe que o seu software possa ser tornado não-livre, ou que ele prefira isso, é uma decisão que lhe cabe, e é ele quem deve decidir tal coisa: não faço tensão alguma de lhe tirar tal escolha. Todo o meu comentário foi, portanto, apenas uma explicação sobre o porquê daquela cláusula, e porque é que ela é uma garantia de liberdade, protecção da liberdade do software, e não uma restrição de liberdade.

    Se não concordas com a minha justificação, refuta-a. Tentares fazê-lo atacando-me não irá funcionar.

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  11. Victor says:

    Mas penso que todos percebemos as definições, e por isso não avle a pena acrescentar mais nada porque será sempre o mesmo dito por outras palavras.

    Mas neste teu último comentário tens uma afirmação que é interessante, e que para mim faz toda a diferença:

    “Que ele não se importe que o seu software possa ser tornado não-livre, ou que ele prefira isso, é uma decisão que lhe cabe, e é ele quem deve decidir tal coisa: não faço tensão alguma de lhe tirar tal escolha.”

    É mesmo isto, ele não se importa, embora não significa que prefira, é mais simples pensares que não quer saber, e sim é ele que deve decidir e que por isso não deve ser julgado se faz bem ou mall, no fundo quer a liberdade de fazer o que lhe apetece, parece-me justo.

    “Todo o meu comentário foi, portanto, apenas uma explicação sobre o porquê daquela cláusula, e porque é que ela é uma garantia de liberdade, protecção da liberdade do software, e não uma restrição de liberdade. ”

    Como disse já todos percebemos, muitos não concordamos com a essa protecção forçada, o que não significa que se não existisse de repente deixasse de existir software “livre”.

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  12. José Canelas says:

    Estou em completo acordo com o artigo. E gabo-vos a paciência de argumentar tão honestamente, dissecando as simplificações e distorções. Enfim, queria apenas deixar um link para a apresentação do Jesse Robbins na OSCON, com uma análise muito boa da perda de controlo implícita no uso de aplicações web, em linha com as preocupações do Stallman. http://syncwith.us/talks

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  13. phoenux says:

    Paula, como adepto do software livre (no verdadeiro sentido do termo) só posso concordar com o que escreveste no artigo e nos comentários. Usaste uma expressão que penso que resume aquilo que a GPL é: “(…) tu tens liberdade para fazer tudo o que quiseres, a única coisa que não podes fazer é restringir a liberdade dos outros. (…)”. Excelente! Para mim esta é uma excelente definição daquilo que acho que deve ser o software livre.

    Quanto ao comentário do Álcides, pelo que percebi (e posso estar errado), ele estava a falar de uma licença do tipo BSD. Confesso que não sei muito sobre esta licença, mas à umas semanas estive em conversa com um colega meu que desenvolve firmware para diversos equipamentos de rede, que me disse que preferia a licença BSD à GPL porque, tal como a GPL, código sob esta licença podia ser livremente modificado por ele, sem qualquer tipo de restrições e, essas alterações podiam ou não ser disponibilizadas sob a mesma licença. Isto permitia-lhe “proteger” e “controlar” o seu trabalho e a forma como este era utilizado. Se atendermos unicamente ao ponto de vista do programador, penso que uma licença deste género poderá dar a ideia de um maior controle sob o código desenvolvido: se o programador quiser, pode disponibilizar este código ou não, optando por limitar o acesso às novas funcionalidade e/ou código-fonte; no entanto, caso o programador opte por disponibilizar o código sob a mesma licença, nada lhe garante que um outro programador pegue nesse código, o modifique e que o “feche” numa aplicação onde poderá ganhar rios de dinheiro, sem dever nada a “quem veio antes”. Todos os programadores que vieram antes perdem o controle ao código desenvolvido, deixando de ser deles.

    Como programador agrada-me muito mais a licença GPL, onde apesar de ter de disponibilizar as alterações que fizer a um código sobre esta licença, mais tarde poderei beneficiar das alterações que outros programadores façam ao meu código, tal como eles beneficiaram do meu código. É um modelo de partilha (“forçada”), mas que resulta muito bem, tanto para programadores, como para clientes finais.

    Podem dizer que um programador pode ganhar muito mais dinheiro numa licença do tipo BSD do que numa licença GPL… A curto prazo, e se os vossos rendimentos dependerem do desenvolvimento e venda de uma única aplicação, talvez o BSD seja o mais rentável; no entanto a longo prazo, um modelo de desenvolvimento individualizado e fragmentado como o BSD não conseguirá responder a um modelo como o desenvolvimento de software sob GPL, onde por vezes milhares de programadores trabalham para o mesmo fim: fazer mais e melhor software.

    Gosto mesmo muito de GPL, não só porque beneficio directamente do trabalho desenvolvido por outros programadores e que posso modificar e melhorar em função das necessidades da minha empresa, mas também porque o retorno do meu trabalho para a comunidade pode virtualmente beneficiar milhares de pessoas. Para as empresas que apostam em software opensource, creio que isto é uma mais valia: se contratarem um ou dois programadores para modificarem e adaptarem o software aberto às suas necessidades, acabam por ter uma solução à medida muito mais barata e dimensionada, algo que necessitaria de centenas de programadores e/ou de milhares de euros para uma solução idêntica em software proprietário. Por outro lado, as modificações efectuadas por estes programadores podem ser “devolvidas” à comunidade, podendo virtualmente beneficiar milhares de outras empresas. Quanto mais empresas investirem, mais e melhor software se vai produzir, num ciclo infinito com o qual só temos a ganhar.

    Desculpa o tamanho do comentário. Não foi intencional.

    Cumprimentos.

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  14. Concordo com a Paula…

    Eu não sou programador, sou economista, e gosto bastante do mercado de informática, e especialmente do software. Tenho dado “perninhas” em tudo o que seja tradução de software fechado, aberto, start-ups tugas… tudo.

    O que se discute aqui, e já se discute à muito tempo, e tem levado à proliferação de tipos de licença é algo muito básico.

    O esquema de licenciamento que existe deve ser mantido e respeitado, desde o primeiro ao último momento.

    Como já aqui foi dito o software livre tem que ser totalmente livre, na sua forma presente como nas formas que possa assumir no futuro.
    Por outro lado o software tipo BSD já permite a “apropriação” do código para criarmos algo, e proteger a nossa criação… já que no fundo ao fecharmos o nosso programa, apenas fechamos aquilo que fizemos, já que o código original continua disponível, aberto para quem o quiser usar.

    Se um é melhor que o outro? não sei, mas a minha pilinha é maior do que a de muita gente…

    Agora não é à toa que o tipo de programador apoiante da licença x ou y é diferente. Se do lado do software livre quase que aposto que 80% vem do mundo académico, que “não vive” do software que cria, do lado das licenças chamadas mais restritivas temos os programadores que têm que sobreviver às custas das suas criações…

    É a lei da vida… é o “DRM pessoal”… se eu quero ganhar dinheiro a fazer pasteis de Belém (não disse pasteis de nata), e alimentar todos os que trabalham à mesa do meu restaurante ao pé do CCB, eu vou querer fechar os segredos a sete chaves,ou controlar a sua disseminação… mesmo usando ingredientes “livres” como a farinha, os ovos, ou a água🙂, ou sabendo que existem n receitas livres de pasteis, muito parecidos com as minhas.

    Agora isto não impede que este programador use e participe igualmente do software livre… que aprenda e ensine com os outros e aplique esta aprendizagem no seu código fechado.

    O que eu acho ridículo são as posições extremas em que algumas pessoas se enclausuram e teimam em menosprezar as outras licenças como reles, menores ou menos puras como já assisti em algumas discussões com amigos e conhecidos.

    Se o autor de um código o disponibiliza livremente, ou dá autorização a terceiro para fechar depois de melhorado… cabe ao autor inicial esta decisão. e aos “autores” seguintes, cumprir com este desejo.

    Quanto à licença BSD “ter mais sucesso no curto prazo”… lembro apenas o caso do Macosx totalmente suportado em darwin que segue este esquema de licenciamento.

    Normalmente para picar a malta, eu costumo dizer que o Macosx é o que o Linux poderia ser se tivesse uma licença BSD :)… ;p

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  15. Bem, permita-me discordar do João quando diz:

    “É a lei da vida… é o “DRM pessoal”… se eu quero ganhar dinheiro a fazer pasteis de Belém (não disse pasteis de nata), e alimentar todos os que trabalham à mesa do meu restaurante ao pé do CCB, eu vou querer fechar os segredos a sete chaves,ou controlar a sua disseminação…”

    É que não só tem vários casos, por exemplo na área da música, de artistas que lançaram a sua música livremente e ganharam mais economicamente falando, do que alguma vez ganharam com os CD lançados com as editoras no passado, como tem várias empresas que trabalham exlusivamente com software open-source e livre (repare que free software as in free speech and not as in free beer), como ainda pôde ver há pouco tempo a Sony admitir que o DRM aumenta a pirataria e portanto a falta de controlo na disseminação.

    O facto das coisas serem livres não significa que não se ganhe dinheiro com isso, de forma justa e honesta.

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  16. Atenção Paula que eu não discordo de si… Eu sei que há muitas empresas/pessoas a ganhar dinheiro com o open, mas não me diga que é com O Software Livre… Quando muito é com os serviços associados ao software livre… a instalação, configuração e manutenção…

    No fundo quem compra uma solução da MS paga a licença e tem 2 anos de apoio técnico incluído… quem “compra” Suse paga os dois anos de apoio técnico… com a desvantagem que técnicos “certificados” SUSE (ou Mandrake ou Red Hat) são bem menos do que os da MS e bem mais caros… e não comento os ideais da comunidade, pois quem tem que lidar com problemas técnicos de software do qual depende uma empresa não pode estar à espera da comunidade… tem que fazer um telefonema e uma hora depois ter alguém em quem confia para ter o problema identificado e resolvido. Assim é a economia.

    Quando falei do DRM não me quiz lançar na discussão sobre pirataria musical… mencionei o DRM apenas como “arma de defesa pessoal” que no caso da música é empregue de forma arrogante e exagerada.

    Quanto ao ganharem mais o lançar as músicas gratuitamente do que se o mesmo album fosse “editado”… custa-me a crer, e claro depende da negociação que os autores levam a cabo com as editoras (sim, na maioria dos casos são Chulados normalmente por causa dos contratos que assinam no princípio de carreira)… mas não vou por aí pois não é o meu negócio.

    Apenas menciono o facto que mesmo o disco dos radiohead apesar de ser “contributivo” e ter feito supostamente (nunca se chegou a saber quanto exactamente) acabou por ser editado e os autores afirmarem que é impensável sobreviver sem uma edição em CD.
    Quanto a cantores em princípio de carreira, vamos ver quantas mais músicas a Ana Free vai lançar no youtube agora que é a música que lhe paga as refeições… e que tipo de contrato é que ela assinou com a editora dela… apesar de já ter notoriedade garantida, e o “custo de entrada no mercado da música” ser bastante menor para a editora.

    Lembro-me de outro caso que oferecia o disco original e gravava todos os concertos que dava e o que era vendido era o concerto onde eu os tinha visto… do tipo chegava a casa todo excitado e comprava o concerto que tinha acabadinho de ver… mas também não resultou…

    O mercado é difícil, é complicado convencer um director de IT que Open Source é caminho, pois como ele próprio desconhece o software, não consegue ter “certezas” de que há alguém responsável pelo que tem instalado na sua empresa…atenção!! por muito mau que o pos-venda seja.

    Eu gosto do SOftware livre, tenho vivido em torno dele desde prái 2000… tenho suportado algumas soluções web

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  17. ..em torno do software livre… mas sei que se fosse a concurso com algum tubarão com software proprietário, dificilmente teria vantagem por muito que a minha opção fosse idêntica em termos de funcionalidades.

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