Opinião: não LEYA, leia

E eis mais um post atrasado. Todos ouvimos falar na “birra” da LEYA, para levar a sua avante, de ter,na feira do livro, as suas próprias barracas. Todos soubemos que a pressão da Câmara de Lisboa levou a que a LEYA levasse a sua avante.

Eu quero é agora falar-vos do resultado. Uma Feira do Livro deve ser uma festa do livro. Devo dizer que me agradam as barraquinhas tradicionais: os livros muitos juntinhos, que percorremos com o dedo, enfiarmos a cabeça de baixo do plástico, quando está a chover, olhar para as lombadas lá dentro e pedir para ver, aproveitar para falar com aquelas pessoas, cujo trabalho se desenrola perto dos livros, todo o ano, percorrer as barraquinhas de livros antigos, sob a torreira do sol e estendermo-nos na relva fresca, a apreciar a sombra e as aquisições.

Mas as barracas pouco importam, o que importa é descobrir livros e falar com quem está nas barraquinhas, mesmo quando nos atiram um “ah, tínhamos lá muito disso, mas ficaram estragadas com a humidade e deitámos tudo fora”, que nos arrepia até à raiz dos cabelos.

O que importa é podermos ver e mexer e aspirar o diferente aroma de cada livro. Isso é que importa. Sentir o aroma de uma editora que ama os livros.

O resultado da “birra” da LEYA foi só um: em vez de se integrar na Feira do Livro de Lisboa, colocou as suas barracas vermelhas e brancas em círculo fechado, auto-excluindo-se de todas as outras. Em cada entrada, alarmes iguaizinhos aos hipermercados, com o respectivo segurança ao lado. Prateleiras com livros em exposição, como bibelots. E, no meio, caixas, como no supermercado. E, ainda no meio, um espaço para os pais deixarem os putos?

Assim, a LEYA tornou o exterior, as barracas em vez dos livros, o mais importante da sua feira. E recebeu-me à entrada, dizendo-me que eu poderia ser um potencial ladrão.

A experiência de ir à Feira do Livro é exactamente isso: ir à Feira do Livro. Se eu quiser ir ao supermercado do livro, vou à Fnac.

Por isso, a LEYA para mim acabou-se, o que significa que ASA, Caderno, Caminho, Dom Quixote, Gailivro, Livros d’Hoje, Lua de Papel, Ndjira (Moçambique), Nova Gaia, Nzila (Angola), Oceanos e Texto, acabaram-se.

Gostaria de ter podido ir à Feira do Livro quando lá esteve o sr Lobo Antunes, ter-lhe-ia sugerido que arranjasse uma editora do seu tamanho. Na última revista Ler, li que Lobo Antunes vai, por enquanto, permanecer na Dom Quixote. É pena. Gostaria de ver as lombadas completas dos seus livros na minha estante. Do mal o menos, ainda me restam as bibliotecas!

One thought on “Opinião: não LEYA, leia

  1. V Meireles says:

    Vamos a pôr os pontos nos is.
    O ensino é um serviço público exactamente como a saúde, daí que a indústria farmacêutica seja um negócio tão parecido com o dos manuais escolares. Quer isto dizer que estes serviços públicos (Saúde e Educação) têm volumes de negócio enormes. Por alguma razão, os preços dos medicamentos e dos livros escolares são incomportáveis… Os medicamentos, assim como os livros deveriam ser gratuitos até aos 18 anos (à semelhança do Reino Unido) ou a preços reduzidos e sem darem lucros às empresas, uma medida justa e sensata para as famílias.
    Mas é nesta questão que a porca torce o rabo – os preços dos manuais.
    Perguntem-se:
    Se os manuais escolares não tivessem lucros, os investidores apostavam neste negócio?
    A Porto Editora ganha dinheiro com este mercado?
    A Leya surgiu só pelas edições gerais?
    Pois a verdade é que os manuais escolares são um negócio de milhões!
    Os manuais escolares são caros. As editoras têm departamentos de marketing e gestores de marca e produto que fazem produtos à medida da necessidade da venda e não da compra. Os packs que se tornam em compra obrigatória são feitos para o maior lucro.
    E o lucro são aquilo que alimenta as empresas… e os monopólios! É aqui que uma Leya ou uma Porto Editora acordam entre si a subida dos preços para um maior lucro (neste ponto são as maiores amigas porque veja-se só, ganham os dois!?) E como entre si, possuem mais de 80% de todo o mercado editorial, sobem os preços mas não dão maior desconto aos Livreiros, logo, estes têm de cobrar mais. E sobra para quem? Para os consumidores.
    Atingimos também o cúmulo da incompetência com a situação actual da Leya. Despediram vários bons elementos e colocaram os amigos e familiares. Não têm capacidade de abastecer o mercado e mentem com quantos dentes podres têm na boca ao dizer o contrário. A administração tem negócios paralelos para abastecer as próprias empresas e fazem acordos colaterais com as rivais para conseguirem mais lucro mas por outro lado pagam a elementos corruptos para sacarem informações uma da outra. Pagam à comunicação social que conseguem corromper para não terem a imagem exposta da podridão que são.
    Rola aqui muito dinheiro, mentiras, influências e jogos de poder.
    E porquê a raiva contra a Reutilização? Porque a cada ano, quanto menos se reutilizar, mais manuais se reimprimem e mais ganham as editoras.
    O ódio a princípios como o Livrão ou a empresas como o Clube dos Livros não é de espantar, dado que promovem isso mesmo – a reutilização.
    Quanto à certificação de manuais escolares, é necessário que exista um organismo que analise os conteúdos e não só os programas – põe-se a questão da isenção. A ver vamos!
    Muito se tem falado no ensino sem livros. Tal é possível no que toca a conteúdos, mas já não é possível para os auxiliares, principalmente porque as nossas capacidades psicomotoras estão interligadas entre a leitura e a escrita activa e é só assim que aprendemos. Mais um golpe para os dois grupos editoriais, daí não se pronunciarem sobre este assunto.
    Tudo isto tem de mudar, a bem das famílias e para bem de todos nós.
    Temos de desistir activamente da passividade… E passarmos a ser donos de nós próprios.

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