Comentário a um comentário sobre o MSooxml

Depois de ter comentado um post do Marcos Santos, recebi uma resposta que gostaria de comentar. Acontece que deixei de poder comentar no post referido e decidi contactar o autor. Disse-me o Marcos Santos que deveria haver problemas técnicos e ofereceu-se para publicar o meu comentário. Declinei a amabilidade, dizendo-lhe que nesse caso preferia publicar no meu próprio blog e linkar para o dele, no caso das pessoas preferirem ler o post e comentários originais.

A questão da aprovação do MSooxml encontra-se ferida, quer por dizer respeito à duplicação de standards, que deve ser evitada, quer por o processo não se ter efectuado de forma completamente transparente, como prova a investigação que a União Europeia se encontra a fazer.

A comunidade microsoft considera que as pessoas que não concordam com esta aprovação pretendem apenas denegrir a imagem da empresa, mas a realidade é que se fala de factos, de coisas que estão a acontecer ou que aconteceram. As pessoas estão seriamente preocupadas com a duplicação de standards e com as consequências que isso pode trazer na conservação e acessibilidade aos documentos.

Fica aqui, então, a minha resposta ao comentário referido.

Caro marcoss,

“Como foi a primeira vez, que veio a este blog”
Peço-lhe que não tire conclusões precipitadas: não foi a primeira vez que vim a este blog.

“milhares de pessoas espalhadas pelo mundo que acabaram de contribuir para a aprovação do Open XML.”

Claro que sim, vocês assim o obrigaram. Submeteram à aprovação um formato que não estava (e ainda não está completamente) preparado para ser um Standard ISO.
Um professor avaliou um exame de um aluno dando-lhe negativa. Chamou os colegas para contribuirem para a correcção desse exame. Mesmo assim, o exame continuava negativo. O professor disse então ao aluno que o ía passar na mesma se ele prometesse voltar a estudar a matéria. Eu até posso acreditar na sinceridade do professor, duvido é que o aluno vá estudar a matéria nas férias do Verão…

“Deixe-me lembrar-lhe que estas mesmas pessoas acharam que o formato, a 2 de Setembro, não estava pronto e que sete meses volvidos, depois de um trabalho técnico profundo, o formato foi aprovado.”

Caro marcoss, eu não vi as milhares de páginas, provavelmente nem quem as devia teve tempo para ver, nem vi o “trabalho técnico profundo”, mesmo que o visse, duvido se o entenderia: se nem mesmo os especialistas de topo o conseguem perceber cabalmente! Aliás, essa é mais um argumento contra a standardização deste formato.
Continuam a haver países, como o Canadá, por exemplo, a dar como justificação do seu voto, precisamente o facto do formato não estar pronto para ser um standard.

Mas vi outras coisas:

– A Suécia declarou o voto inválido, na primeira vez, por uma empresa ter votado duas vezes, mas não sem se saber que a “Microsoft Sweden was later found to have offered extra “marketing contributions” to its business partners to encourage them to vote for OOXML, according to e-mails seen by Computer Sweden.
A Microsoft manager said this week that the e-mail “should never have been sent.””

Repare, marcoss, que isto não é uma suspeita, não é um boato: a própria Microsoft admitiu isto. Ora se isto aconteceu na Suécia e existem suspeitas de irregularidades noutros países, acha que há alguma razão para as pessoas acreditarem que essas outras suspeitas são COMPLETAMENTE infundadas?

– A União Europeia continua a investigar formalmente o processo

Não estamos a falar de boatos, nem de denegrir a imagem de ninguém. Estamos a falar de suspeitas que a Comissão Europeia tem sobre este processo e que se encontra a investigar. Poder-se-á concluir que são verdadeiras ou não. Não sabemos. Aguardamos.

Mas diga-me agora a sua opinião sobre o que aconteceu em Portugal. Estamos a falar de documentos: chamaram as bibliotecas? as universidades? os arquivos?

Diga-me, não deveria a Microsoft ter dito logo que o presidente da comissão deveria ser uma pessoa sem qualquer ligação ao que estava a ser aprovado? Até para sua própria salvaguarda pessoal? Este presidente pode ser a melhor pessoa do mundo, mas não vos passou pela cabeça que as pessoas não têm forma de saber isso?

Não vos teria sabido melhor poderem agora dizer que uma comissão presidida por uma pessoa sem qualquer ligação ao que foi aprovado, aprovou o que estava em causa?
Porque não o fizeram? Era assim tão crucial não o fazerem?

Diga-me outra coisa, o sr acha correcto que a Sun tenha sido impedida de participar nesta comissão com a justificação de não haverem cadeiras na sala?
Que alguém proíba a participação de uma pessoa num processo desta importância por não ter conhecimentos técnicos para a sua avaliação é uma coisa, dizer a uma pessoa que ela não pode participar porque não há cadeiras?! O sr tem consciência que Portugal foi, por causa disto, motivo de risota internacional?

Mas todas estas questões fazem parte do processo. Eu não consigo perceber porque é que fazer do MSOOXML um standard é assim tão importante para vós que se arrisquem a dar cabo da vossa própria imagem.
Porque na realidade a VERDADEIRA QUESTÃO AQUI é exactamente o contrário do que o marcoss afirma:

“Qualquer entendido na matéria sobre normas, lhe poderá dizer que existem mais de uma norma para o mesmo fim e que é bom que isso aconteça para que a concorrência funcione, beneficiando o mercado e os consumidores.”

Porque precisamos de mais um standard, para a mesma coisa? Que não faz mais, pelo contrário, do que o que já temos? Se já havia um standard porque não o implementou a Microsoft?

Eu não sei o que o marcoss entende por entendido, mas

“Egyedi, a researcher of technical standards, at the Technical University in Delft, the Netherlands, doubts whether ISO should have a taken into consideration a second standard for electronic documents at all. ISO approved the Open Document Format ODF in 2006, says Egyedi: “What are we to do with a second standard, which is overlapping the first? This conflicts with rules of the World Trade Organisation.”
The standards specialist refers to the WTO Agreement on Technical Barriers to Trade, which states that duplication or overlap should be avoided.”

Avoided.

Agora parece ser o marcoss a esquecer-se que formatos e aplicações são duas coisas diferentes:

“Having multiple competing products is a good thing; having competing standards adds cost to industry, government and citizens.”

Os consumidores beneficiam com produtos que competem entre si, mas não beneficiam nada com a introdução de mais um standard, que além de não acrescentar nada ao já existente ainda levanta mais problemas.

Para que precisa o utilizador de uma coisa que não só não acrescenta nada à que já tem, como ainda por cima não faz tudo o que a que já tem?

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