O acordo ortográfico

Não concordo com o tão falado acordo ortográfico. Aliás, discordo sempre de qualquer tentativa de artificiar a língua. Uma língua deve evoluir consoante o uso que dela fazem os falantes e não porque alguém decide, de um momento para outro, mudá-la.

Foi um taxista brasileiro que resumiu, na minha óptica, o problema da melhor maneira. Leio no Público de ontem:

“Outro acordo?”, pergunta o taxista Adilson Costa. “Eu só não sei é para quê, falamos todos português. Só muda o sotaque.”

Se não obrigam todos os falantes de todos os países de expressão portuguesa a falar da mesma maneira, o que se me afigura saudável, porque querem obrigá-los a escreverem igual?

É também no Público de ontem que descubro que um dos responsáveis pelo Acordo Ortográfico é, imaginem, o sr Malaca Casteleiro. O mesmo sr que se achou no direito de grafar a palavra lobby como lóbi (quando o dicionário da academia saiu, a RTP fez um questionário de rua, ao que os transeuntes responderam soletrando correctamente a palavra lobby e se os falantes que a usam a sabem escrever porquê mudá-la?), o mesmo sr que se achou no direito de grafar a palavra bué num dicionário (no meu tempo de secundário, era uso brincar com os lisboetas por causa desta palavra, que na minha óptica não passa de uma palavra de geração), etc, etc.

Um dos argumentos que este sr invoca é a facilidade de aprender a escrever. Há pouco tempo, passei os olhos por um livrinho já antigo que defendia o acordo ortográfico, contra-argumentando que a maior parte das pessoas não escreve correctamente pelo que uma mudança na língua não seria grave.

Pois meus caros leitores, até a língua já goza do facilitismo escolar: se os alunos tiram más notas, dêem-se exames mais fáceis! Se não sabem escrever, em vez de se fomentar o ensino da língua, mude-se a língua!

Quem não concorda com o acordo é muitas vezes apelidado de conservador ou velho do restelo, mas a mim afigura-se-me é que quem luta por um acordo destes ou tem problemas com as diferenças linguísticas ou tem problemas em descer num ranking qualquer de línguas mais faladas no mundo. E estas razões, a meu ver, nada têm de válidas para artificiar um dos aspectos mais importantes da cultura dos povos: a língua.

13 thoughts on “O acordo ortográfico

  1. Concordo plenamente. Já agora, a palavra “lóbi” é das mais ridículas que me lembro nos últimos tempos. Não só acrescentou uma palavra à Língua Portugesa sem necessidade, como a fez com uma grafia completamente díspare da do uso comum, como, acima de tudo, fê-lo logo com uma palavra que cria automaticamente uma excepção à Língua Portuguesa, com o uso do acento na primeira sílaba tónica (para quem não se recorda, as palavras da Língua Portuguesa já são graves por omissão)…

    Like

  2. Apesar de ser sempre a favor de evoluções desta vez sou totalmente contra. Não é que eu escreva um bom português e não queira mudar, não nada disso. Pelas razões que apresentas-te e porque acho que a língua é feita por uma nação(ões) e não por meia dúzia de pseudo-intelectuais.

    Like

  3. nuno says:

    E a palavra “lóbi” nem é particularmente má quando comparada, por exemplo, com “cóboi”. Essa sim é de uma boçalidade extrema, até porque nem respeita a pronunciação da palavra inglesa de onde deriva.

    Like

  4. Cláudia says:

    Já escrevi várias vezes: posso viver mais cem anos mas não vão ver-me nunca a escrever facto sem C. O Governo é o próprio assassino da língua MATERNA!

    Like

  5. Porque não quero o novo Acordo Ortográfico…

    Porque o Acordo Ortográfico de 1990 não é bom, e porque não quero nunca que entre em vigor: Porque a língua escrita não tem de ser um espelho da expressão oralMuitos portugueses dominam o inglês e o francês e sabem……

    Like

  6. maria do carmo cardoso says:

    Fazem-se referendos a torto e a direito e depois conclui-se que custa muito dinheiro. E então o que li hoje sobre a obrigação de publicar tudinho e de os pais terem de comprar tudinho? Depois, simplificar é uma coisa “facilitismo” é outra. Talvez seja a tal história do “ranking”… mas que é triste, é: sempre a espinha dobrada e as prepotências, assim como as arrogâncias.

    Like

  7. Maria do Carmo, não consigo perceber o que quer dizer.

    “E então o que li hoje sobre a obrigação de publicar tudinho e de os pais terem de comprar tudinho?”

    A que se refere?
    Um abraço

    Like

  8. Lara says:

    Bom, nem sei por onde começar. Vejo tanta asneira escrita que quase me apetece dizer que antes de palpitarmos sobre o acordo devemos é ir para a escola aprender a escrever…
    – porque em vez de por que;
    – apresentas-te em vez de apresentaste; e outras.
    Sobre o acordo, pese embora o facto de não ser perita na matéria, entendo que uma língua viva evolui constantemente, seja qual for o motivo. Há, certamente, o objectivo de facilitar a comunicação, quer ela seja escrita ou falada. No caso do Acordo Ortográfico reina, ainda, muito desconhecimento, mas pelo que tenho lido não deixaremos de escrever as letras que pronunciamos, como por exemplo: o c de facto; o c de pacto. Já na palavra acto será eliminado o c, não o lemos… e como tal estará bem escrito ato. Dirme-ão que se confunde com o ato do verbo atar. Será mais uma palavra homónima como: canto (da sala) e canto (do verbo cantar). Temos que estar recetivos à mudança. Vamos lá!

    Like

  9. Poderia argumentar com outros exemplos, mas a discussão dos exemplos não avança em nada o debate. A língua evolui sempre. Mas é muito diferente uma língua evoluir por os falantes a moldarem do que evoluir porque alguém decide que ela evolua.
    Neste caso, as razões que se prendem com o Acordo são meramente políticas: é para ficarmos bem numa qualquer lista de línguas mais faladas do mundo.
    Em termos práticos, a mudança não é boa, nem para os falantes, nem para a economia, nem para a conquista de novos mercados.
    No fundo, é para continuarmos a alimentar esta ilusão, que tanto mal nos tem feito, que somos “grandes” como éramos “grandes” na época dos Descobrimentos.
    E não, não temos de estar receptivos à mudança, quando falamos de uma mudança da língua imposta por meia dúzia de falantes: os políticos😛

    Like

  10. Qual é a lógica says:

    A principal mudança no acordo será a retirada das consoantes omissas ( ‘p’ e ‘c’) , esta justificação de aproximar o português escrito ao falado é perfeitamente rídiculo. A mais falada língua do mundo (inglês) é o caso extremo de palavras que se lêem de uma forma e se escrevem de uma forma completamente diferente. Mas cá em Portugal certos estudiosos dizem que é sinal de atraso. Existe centenas de palavras em Portugal que não se escreve o que se lê , agora esqueram-se dos ´z´, ´s´, ´c´ e de muitos mais.

    Teinho uma sentena de anus i qéro ir enbora daqi , ora veigão o k para aqi vai, assim não vamus lá. Para! queru uma bissicleta. Conhessu um ato q fás atos de pessas de teatru.

    A justificação que estes senhores dão para a dita mudança é a mesma que outro diz que a frase de cima tem fundamento.

    Like

  11. Raul Mesquita says:

    Bem de acordo com a senhora. E já agora diga-me: o que é isso – “bué:?
    Acabo de enviar um pequeno comentário para o Correio da Manhã onde termino pedindo que não tirem o acento ao cágado. É uma preocupação minha que nestas paragens, procuro ensinar a Língua Portuguesa às novas gerações e que não tenho qualquer intenção de modificar a Língua, aquela que a subserviência habitual portuguesa vai modificar para agradar aos brasileiros, sobretudo. Mas, insisto. Qual o problema de ter ou não cê antes, nesta ou naquela palavra, se os brasileiros, de toda a forma, não utilizam os mesmo termos. Alguém defende com energia que o cê de acto já deveria ter desaparecido há muito. Ah sim? Então como se fará a diferença entre o s. m. e o verbo? O que é que complica ter hífens nas palavras compostas?
    De que pode servir tirar, ainda, o cê a facto? Fica fato a confundir indumentária e evento. Mas os brasileiros — emmerdeurs—no caso de roupa dizem terno…de ternura?
    Enfim, muito se poderia dizer. O Francês que se fala aqui tem diferenças do falado em França e e nem por isso se fazem modificações. O caso da Bélgica é outro exemplo. E que dizer do Inglês da “British” e o falado na América e noutros locais? Terão os ingleses feito concessões linguísticas e ficam-se apenas pelos jocosos comentários da língua falada no Novo Mundo?
    Quanto mais a gente se abaixa…
    Neste momento, em Portugal, vive-se período difícil onde, pouco a pouco, vamos perdendo a nossa identidade. O Governo em exercício é o coveiro da portugalidade. Arrogante e “ultraconvencido”. Cabe aos portugueses de reagir. Serão capazes?
    Desculpe. Duvido.

    Québec-Canadá

    Like

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s