a pé, até ao outro lado da cidade

…ía subindo a rua, mastigando as pedras da calçada e embrenhando-se na noite. ía devagar, para ter tempo de rememorar a vida.
…ía embora.
para onde?

porquê?

há já algum tempo (há quanto tempo?) que tinha esta sensação: sair daqui, sair deste lugar, sair de qualquer lugar. ir embora. não importava para onde. apenas ir.
se tinha problemas? não, não tinha problemas. enfim, nada de grave, apenas o que chamava de ‘problemas de rotina’… nada de grave. o emprego era estável. e embora ainda no início, adivinhava-se-lhe uma carreira promissora na empresa. os colegas costumavam comentar que não havia nada que “aquele gajo” não conseguisse resolver, o que no vocabulário das chefias se traduzia como “dotado de capacidades polivalentes”.
e amigos? tinha amigos? sim, também. estava muitas vezes com os amigos. havia sempre alguém para tomar café, conversar… embora… embora se sentisse, de facto, muito só.
agora que pensava nisso, saboreava o absurdo da questão. sentia-se muito só na presença das pessoas.
como é que começava este sentimento de solidão? – estacou no meio da rua para concentrar a energia no raciocínio. tentou imaginar-se no meio dos amigos no café… tinha ganho o hábito de observar as pessoas em volta, reparava-lhes nos gestos, nas reacções… apropriava-se das suas imagens e ao mesmo tempo sentia-se distanciar do local onde estava. depois… depois tomava consciência de si próprio, via a sua própria mão, com o cigarro entre os dedos, pegar na chávena do café e ouvia-se a responder às perguntas que lhe faziam, às vezes também ria, mas não reconhecia o próprio riso. observava-se como um estranho, exterior a si próprio, e era nesse exacto momento – reconhecia agora – que se sentia só. profundamente só.
pestanejou com a luz do candeeiro, debaixo do qual tinha parado e do qual parecia só dar conta agora, e a silhueta esguia e rectilínea do seu corpo vacilou. recomeçou a marcha, ainda atordoado pela descoberta: sempre que saía de si próprio, sentia-se só.
só. a palavra arrepiava-o. murmurou baixinho várias vezes: “só…só…só…só”, numa tentativa de gastar a palavra e sossegar. voltou a parar, respirou fundo e seguiu em frente.

Começava a sentir os pés maçados. Há quanto tempo estaria a andar? E onde estava? Olhou em volta na esperança de reconhecer a rua. Tinha andado de forma automática, deixando o corpo dirigir-lhe os passos, e agora via-se no outro lado da cidade, em frente da estrada que o separava da estação de comboios. Ficou muito tempo parado a olhar para a fachada do edifício. Aquela estrada era o único obstáculo que o separava da fuga.
Fuga?
Até aqui, sentia apenas que precisava sair, mas agora… agora dera-lhe o nome de fuga. Seria isso? Estaria a fugir de algo? A palavra não lhe agradava. Sentia-lhe um travo de cobardia…
Passou a mão pela parte de trás do pescoço, respirou fundo e atravessou a rua.
A noite parecia expandir-se para dentro da estação. Fora remodelada há pouco tempo e os candeeiros jorravam uma luz suave aqui e ali.
Sentou-se num banco e esperou…
Do outro lado das linhas, uma rapariga estava enroscada no chão, junto à parede. Capturou-lhe a imagem triste do cabelo escorrido e da cara magra. Sentiu-a só. E, pela segunda vez na noite, estremeceu.
O comboio que lhe deslizou na frente, apagou-lhe a imagem.
Entrou de sopetão e sentou-se na carruagem vazia. Olhou pela janela, mas viu apenas as paredes cinzentas e vazias.
Quando o comboio iniciou a marcha, o revisor aproximou-se e perguntou:
– Para o sítio do costume?
Fez um assentimento mudo, enquanto tirava umas moedas dos bolsos.

Enquanto se afastava, o revisor ía pensando qual seria o emprego daquele homem, que lhe aparecia todos os dias a altas horas da noite, para ir para o outro lado da cidade de comboio.

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