Como estão a votar os EuroDeputados Portugueses, na Reforma sobre o Direito de Autor #FixCopyright #Internet

Em 2019, teremos eleições legislativas e eleições para o Parlamento Europeu. Para aqueles que se preocupam com os direitos fundamentais, o ensino, a investigação científica e a inovação tecnológica, é importante começar a tirar notas de como os deputados ao Parlamento Europeu e respectivos partidos têm votado no que respeita à reforma Europeia sobre Direito de Autor.

A Reforma sobre o Direito de Autor, iniciada pela Comissão Europeia no final do ano passado, está prestes a chegar ao fim. Há três organismos políticos importantes para esta reforma: a Comissão Europeia, que sugeriu esta reforma; o Conselho Europeu, que reúne as opiniões dos governos Europeus; e o Parlamento Europeu, que é o órgão eleito directamente pelos cidadãos, que irá votar o texto final e que se for aprovado será tornado numa directiva (lei Europeia), após o que todos os Estados-Membros, como Portugal, a terão de adaptar para a legislação nacional criando uma lei Portuguesa.

Ou seja, o que for decidido lá em cima, há-de vir morder-nos cá em baixo.

O Parlamento Europeu tem várias comissões, para várias áreas, algumas das quais têm de se debruçar sobre esta reforma. Os deputados que pertencem a estas comissões sugerem alterações e discutem a proposta da Comissão Europeia e, no fim, votam um texto final.

Até agora, os textos finais aprovados nestas comissões não têm melhorado substancialmente o texto da Comissão.

Os problemas principais estão praticamente na mesma:

  • Obrigar as plataformas a verificar tudo o que queremos publicar na Internet, antes de ser publicado, e apenas deixar-nos publicar o que quiserem;
  • Impedir-nos de partilhar títulos ou excertos com link de notícias nas redes sociais;
  • Restringir o que os professores podem fazer com as obras para fins de ensino e obrigar os estabelecimentos de ensino a pagar licenças e taxas;
  • Restringir a prospecção de texto e dados (text & data mining).

Para além de introduzirem alterações às propostas da Comissão, alguns deputados Europeus fizeram propostas novas e positivas, que têm sido rejeitadas nestas comissões:

  • Tornar obrigatória para todos os Estados-Membros a excepção de panorama (para que todos os Europeus possam tirar fotografias a obras (esculturas, murais, edifícios, etc.) que estejam na rua e partilhar na Internet);
  • Criar uma excepção para conteúdos gerados pelos utilizadores (user-generated content), como os memes, por exemplo;
  • Resolver o problema do DRM, para que este não continue a impedir os cidadãos de exercerem os seus direitos fundamentais.

Ou seja, o que está mal tem sido mantido e as melhorias têm sido rejeitadas.

Até agora houve três comissões a votar, duas das quais têm representantes Portugueses. Os srs. deputados Carlos Coelho (PSD) e Carlos Zorrinho (PS) votaram a favor do texto final que segue a proposta da Comissão Europeia. A sra. deputada Marisa Matias (BE) foi, até agora, a única deputada a votar contra esta reforma. É caso para dizer, valha-nos o Bloco de Esquerda.

Faltam votar ainda duas comissões:

A LIBE (Liberdades Civis, Justiça e Assuntos Internos), que vai votar, no próximo dia 20 de Novembro, apenas o artigo 13º, de que falei no meu post anterior e onde temos uma representante Portuguesa, a sra. deputada Ana Gomes (Twitter: @AnaGomesMEP Contactos na página do PE).

Por último, votará a comissão JURI (Assuntos Legais) – prevê-se em Janeiro -, que irá reunir todos os documentos votados pelas comissões anteriores e votar um texto final. O voto desta comissão é o mais importante, as alterações que não ficarem no texto aprovado pelo JURI, muito dificilmente poderão ser votadas em Plenário. Na JURI, temos também um representante Português, o sr. deputado António Marinho e Pinto (Twitter: @MarinhoPintoEU Contactos na página do PE).

Depois da votação na JURI, o texto final irá ser votado no Plenário, onde todos os deputados poderão votar. A informação que tenho, de organizações em Bruxelas, é de que aquilo que for rejeitado pela JURI, dificilmente poderá voltar a ser votado no Plenário. Se acrescentarmos a isto que muitos deputados não estão por dentro deste assunto, muitas vezes acontece votarem seguindo os votos das comissões ou seguindo simplesmente os seus grupos políticos. E isto são muito más notícias porque os grupos parlamentares Europeus com maioria (EPP e S&D) têm mostrado que gostam muito das propostas da Comissão Europeia.

O que podemos fazer? Contactar os deputados das comissões que faltam votar (ver acima); pressionar o Governo Português; falar com pessoas de outros países para contactarem os seus representantes políticos; e fazer muito, muito barulho nas redes sociais, para que nos ouçam.

Actualizarei os votos abaixo, consoante as comissões forem votando.

Votos nas Comissões:

Comissão IMCO (Mercado Interno e Protecção dos Consumidores):

Deputado Carlos Coelho (PSD) votou a favor da reforma.

Votação no dia 8 de Junho de 2017. Documento em PDF com os votos de cada deputado da IMCO e de onde o screenshot abaixo foi retirado.

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Comissão ITRE (Indústria, Investigação e Energia):

Deputado Carlos Zorrinho (PS) votou a favor da reforma.

Deputada Marisa Matias (BE) votou contra a reforma.

Votação no dia 11 de Julho de 2017. Documento em PDF com os votos de cada deputado da ITRE e de onde o screenshot abaixo foi retirado:

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O que o @Publico diz e o que o @GovPT e o @Cultura_PT defendem sobre a reforma Europeia sobre o Direito de Autor #FixCopyright

TL;DR: O Público noticiou que a Comissão Europeia e o Governo Português defendem a criação de uma nova lei em que as plataformas devem ser obrigadas a remover os conteúdos que não respeitam os direitos de autor, publicados pelos utilizadores nas plataformas na Internet. Isto está errado. O que a CE e o GovPT defendem é que as plataformas passem a ser obrigadas a impedir esses conteúdos de serem publicados. Isto implica que as plataformas sejam obrigadas a verificar todos os conteúdos que queremos publicar, antes de serem publicados, e a deixar-nos publicar apenas aqueles que as plataformas em acordo com os titulares dos direitos acharem que podemos publicar. O Tribunal de Justiça da União Europeia tem duas decisões onde conclui que uma medida deste género viola várias Directivas Europeias, assim como, e obviamente, viola os Direitos Fundamentais dos cidadãos.

Agora, a explicação mais detalhada e longa:

O jornal Público lançou uma notícia do jornalista João Pedro Pereira, titulada “Portugal defende criação de filtros para proteger direitos de autor na Internet“, a propósito de um leak que saiu no final de Outubro, que mostra que o Governo Português, em conjunto com os Governos Francês e Espanhol, tem tido um papel principal no apoio ao artigo 13º da proposta para a reforma do Direito de Autor, iniciada pela Comissão Europeia.

A notícia passa uma mensagem errada do que a Comissão Europeia e os Governos Português, Francês e Espanhol defendem, pelo que decidi escrever este post para clarificar o que está a ser discutido neste momento e que pode vir a tornar-se lei. Refiro que no dia a seguir à publicação, quando li a notícia, enviei mais informação ao jornalista, por DM através do Twitter, mas não recebi até agora qualquer resposta.

A notícia começa por dizer que “o Governo defende o uso obrigatório de sistemas capazes de detectar quando conteúdo protegido por direitos de autor é publicado sem autorização em plataformas como rede sociais ou sites de partilha de vídeo“. No 5º parágrafo, continua dizendo que “embora não sejam obrigatórios, estes filtros já existem“, explicando de seguida como funcionam os tais filtros: “Caso detecte conteúdo protegido por direitos de autor, o detentor desses direitos tem várias opções: remover o conteúdo, deixá-lo publicado ou colocar anúncios no vídeo e, eventualmente, fazer dinheiro (podendo partilhar as receitas com o utilizador que fez a publicação)“. No parágrafo seguinte, o jornalista diz que “a proposta portuguesa, francesa e espanhola pretende que estes sistemas sejam obrigatórios para todas as plataformas” (negrito meu).

Quem ler a notícia do Público vai ficar com a ideia de que há plataformas que criaram filtros para remover conteúdos que não respeitem os direitos de autor publicados pelos utilizadores, e que agora a Comissão Europeia e o Governo Português defendem que todas as plataforma devem ser obrigadas a usar estes filtros.

Problema: Nem a Comissão Europeia propõe isto, nem o Governo Português defende isto.

Para percebermos que alterações à lei a Comissão Europeia está a propor e o Governo Português está a defender é preciso perceber o que a lei actual, que está em vigor, diz:

O que é que a lei actual diz sobre as plataformas que permitem o upload de conteúdos pelos utilizadores?

A lei actual diz que todas as plataformas são obrigadas a remover os conteúdos que não respeitem os direitos de autor, publicados pelos utilizadores. Todas as plataformas. Todas. A lei diz ainda que se as plataformas removerem esses conteúdos de forma diligente (com rapidez), quando notam ou são avisadas da existência desses conteúdos, então não poderão ser responsabilizadas por esses conteúdos terem lá estado publicados.

Dada a abundância de conteúdos que são colocados nas plataformas pelos utilizadores, é difícil para estas notarem todos os conteúdos que não respeitam os direitos de autor, pelo que é mais comum os representantes dos titulares dos direitos, as editoras, ou empresas contratadas por estes, enviarem às plataformas pedidos de remoção de conteúdos.

Algumas plataformas, indicadas pelo jornalista e bem, como o YouTube ou o Facebook (mas não só), decidiram tratar destes pedidos de remoção de conteúdos de forma automática. Estamos a falar de plataformas que, pela sua grande visibilidade e pelo dinheiro que fazem, são um alvo preferido pelos representantes dos titulares dos direitos e portanto devem receber uma quantidade de pedidos de remoção tão grande, que se torna difícil de os tratar manualmente, optando assim por filtros automáticos. Lembro novamente que a lei diz que se as plataformas não tratarem estes pedidos com rapidez elas podem ser responsabilizadas.

Ora, esta lei funciona até “demasiado bem”. Digo “demasiado bem” porque a lei em vigor permite que os representantes dos titulares dos direitos, as editoras, as empresas contratadas por estes e as plataformas removam conteúdos, que têm o direito de remover por não respeitarem os direitos de autor, mas também permite que aquelas empresas removam conteúdos que não têm o direito de remover. O YouTube tem regularmente casos de remoção indevida de conteúdos, alguns particularmente graves como estes listados pela deputada ao Parlamento Europeu Julia Reda. Mas também temos tido casos no Facebook, no Twitter, na Academia, no ResearchGate, no WordPress, etc. Alguns com razão, outros de forma indevida.

As remoções indevidas acontecem porque esta lei está feita para os titulares dos direitos e não leva em consideração os direitos dos utilizadores. Notem que se um conteúdo for removido de forma indevida a lei não prevê nenhum tipo de pena, coima, ou sanção para as entidades que pediram a remoção ou removeram o conteúdo. Não lhes acontece nada, pelo que podem pedir para remover o que lhes apetecer.

Se nos lembrarmos que a lei não responsabiliza as plataformas se estas tratarem dos pedidos de forma rápida, percebe-se o que acontece com mais frequência: a plataforma remove o conteúdo, no questions asked. Há algumas excepções, como casos em que a WordPress tentou perceber se quem estava pedir para remover o conteúdo tinha esse direito, mas de uma forma geral, as plataformas não se dão a este trabalho.

Apesar desta lei originar casos particularmente graves, segue o princípio do contexto analógico. Exemplo: Em Portugal, qualquer pessoa pode publicar um livro em papel, quer através de uma editora, quer através de uma edição de autor. Mas depois do livro publicado, pode haver pessoas que achem que aquele livro não respeita os seus direitos de autor, ou que não quer aquela informação publicada, ou que acha que aquele livro devassa a sua vida privada (como já aconteceu). Neste casos, as pessoas podem fazer uma queixa, o caso pode ir a tribunal, o livro pode ser retirado ou as pessoas podem ter direito a uma indemnização, etc.

A diferença é que no contexto analógico estes diferendos são decididos por um juiz, que conhece a lei, e no contexto digital isto é decidido por uma das partes interessadas no caso (é assustador, não é?). Mas pelo menos toda a gente continua a poder dizer e a publicar o que lhe apetecer (mesmo que possa ser removido depois indevidamente).

Ora, se já temos esta lei, que funciona até para além do que devia, permitindo às entidades removerem o que podem e o que não podem, qual é a alteração que a Comissão Europeia quer fazer e que o Governo Português apoia?

O que é que o artigo 13º propõe alterar?

A Comissão Europeia, com o apoio do Governo Português, propõe que as plataformas passem também a serem obrigadas a impedir a publicação de conteúdos que não respeitem os direitos de autor.

Talvez seja daqui que vem a confusão que o jornalista faz com os filtros. É que a única forma de garantir que os conteúdos que não respeitam direitos de autor não sejam publicados, é verificar todos os conteúdos, respeitem ou não os direitos de autor, antes deles serem publicados. Dada a abundância de conteúdos, é natural assumir que isto só possa ser realizado através de filtros automáticos. Mas os filtros são apenas um meio, o fim é impedir a publicação e não remover a publicação como diz a notícia do Público.

E basta olhar para o texto do ponto 1 do artigo 13º da proposta da Comissão Europeia, que não fala em medidas que removam conteúdos, mas sim em medidas:

“que impeçam a colocação à disposição nos seus serviços de obras ou outro material protegido”

O que é que isto significa na prática?

Considerem como exemplo este post, que estou a escrever na plataforma WordPress. Quando terminar, clico em “Publicar”, o artigo é publicado e vocês podem lê-lo de imediato. Mas se o artigo 13º for aprovado, quando eu clicar no botão de “Publicar”, o meu post não vai ser publicado, em vez disso vai para um sistema que vai “ler” este post e no final vai decidir se eu posso publicar este post ou não. Se o sistema for automático, há uma grande probabilidade de não me permitirem publicar este post, uma vez que uso excertos da notícia do Público, que a lei me permite usar, mas que um filtro automático não consegue reconhecer que estou fazê-lo dentro da lei.

Se quiserem comparar com o exemplo de papel, e se esta proposta se aplicasse ao contexto analógico, então sempre que alguém quisesse publicar um livro em papel, teria de enviar esse livro para uma terceira entidade que ía ler o livro e no fim decidiria se esse alguém podia publicar o livro ou não.

Acresce a isto que os critérios de filtragem são decididos entre os titulares dos direitos e as plataformas, e nenhuma destas entidades é obrigada a dizer-nos quais são esses critérios.

Quando em vez de se remover, se impede a publicação de conteúdos, já não estamos a falar de direitos de autor, mas sim de liberdade de expressão.

Sim, a Comissão Europeia e o Governo Português defendem um sistema de censura prévia. Não é uma censura governamental como a que tivemos até 1974, porque não é o Governo que vai decidir o que podemos publicar (que se saiba), mas é um sistema que só nos vai permitir publicar o que meia dúzia de empresas nos deixarem publicar. O que significa também que só vamos poder ler/ver/ouvir aquilo que meia dúzia de empresas nos deixarem ler/ver/ouvir.

Outros problemas da notícia

A notícia tem outros problemas, não tenho tempo de analisar todos, mas gostaria de apontar os que me parecem mais graves.

  1. Logo no primeiro parágrafo, o jornalista começa por nos dizer a posição do GovPT, que segue a posição da CE. No mesmo parágrafo, e muito bem, o jornalista diz-nos ainda que esta posição tem sido alvo de críticas. (Por “alguns políticos, especialistas e grupos de defesa dos consumidores“).
    • O jornalista dá-nos a cara de uma das posições (GovPT e CE), mas da outra generaliza e parcamente (uns políticos, uns especialistas e uns grupos de defesa dos consumidores), dando assim mais importância à posição defendida do que às críticas;
    • É verdade que mais adiante na notícia, o jornalista concretiza algumas entidades que criticam a posição da CE e GovPT, mas tal não dá ao leitor o alcance das críticas que têm sido feitas.
    • Tenho acompanhado esta reforma há mais de um ano. Não tenho visto muitos grupos de defesa dos consumidores a criticar esta proposta. Tenho visto, sim, muitos grupos de defesa dos direitos digitais dos utilizadores. Nacionais, a D3, a ANSOL, a AEL; internacionais, a Creative Commons, a Communia, a EDRi, a FSFe, a EFF, entre várias dezenas de outros. Mas também muitas organizações que representam bibliotecas, instituições de património e universidades, como a IFLA, a LIBER, a COAR, a SPARC Europe, a NEMO, e dezenas de outras, incluindo organizações que representam startups. Até mesmo entidades individuais, como o Instituto Max Planck e professores e investigadores em nome individual. É certo que são demasiadas para nomear todas numa notícia, mas nem genericamente o jornalista as inclui.
    • Para além das análises feitas por estes grupos, que são importantes porque estamos a falar de entidades com vasta experiência em questões de direitos de autor, temos ainda estudos académicos e científicos que analisam em detalhe o artigo desta proposta concluindo que o artigo não cumpre as leis Europeias e vai contra os direitos fundamentais.
    • Para além destes grupos, temos ainda seis Estados-Membros a questionar a legalidade desta medida (Bélgica, República Checa, Finlândia, Hungria, Irlanda, e Holanda) e um sétimo (Alemanha) a levantar questões. Ora, se o jornalista nos diz que três países Europeus apoiam a Comissão Europeia, não deveria dizer aos leitores, que sete outros países Europeus questionaram esta medida? E esta informação está na mesma página do StateWatch, onde o jornalista foi buscar o documento que originou esta notícia!
    • Mas se nada disto for importante para o jornalista, este ainda tinha duas decisões do Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE), uma relativa aos ISPs e outra relativa às Redes Sociais, em que as condições são exactamente as mesmas em ambas e exactamente as mesmas do artigo 13º que a CE propõe. O TJUE decidiu em ambos os casos que é inaceitável obrigar os prestadores de serviços a instalar um sistema de filtragem a título preventivo “com o objetivo de bloquear a disponibilização ao público das referidas obras em violação dos direitos de autor“. Ou seja, temos o Tribunal de Justiça a dizer, por duas vezes, que medidas como a que CE quer implementar e o GovPT apoia, violam várias directivas (leis Europeias), assim como violam a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia. Não será esta informação demasiado importante para não ser dada aos leitores?
  2. Apesar dos GovPT, GovES, GovFR apoiarem a proposta da CE, aqueles introduziram algumas alterações e no parágrafo 6º, o jornalista decide especificar, e muito bem, quais são as diferenças. No entanto, também aqui a notícia tem problemas:
    • Primeira diferença: a CE propõe que esta medida se aplique às plataformas que “armazenam e permitem o acesso a grandes quantidades de obras” e, diz o jornalista, que os governos em causa propõem que se aplique a todas as plataformas. Na realidade, apesar das alterações pelos governos removerem a parte “a grandes quantidades” do título do artigo, no texto da lei, alteram para “armazenam e permitem o acesso a significativas quantidades de obras“. No entanto, isto parece-me irrelevante porque devemos ter sempre presente o contexto do que estamos a analisar. Independentemente da proposta dizer “grandes” ou “significativas”, esta medida irá aplicar-se a todas as plataformas. E a razão é muito simples: estamos a falar de plataformas cujo modelo é o upload de conteúdos pelos utilizadores. Qualquer plataforma que se baseie neste modelo tem obrigatoriamente de dar acesso a grandes/significativas quantidades de obras. Se não o fizer, só há duas explicações: ou a plataforma apareceu hoje e espera escalar nos próximos dias passando a dar acesso a grandes/significativas quantidades de obras, ou a plataforma vai morrer amanhã! Nenhuma plataforma com este modelo sobrevive se não der acesso a grandes/significativas quantidades de de obras.
    • Segunda diferença: os três governos querem passar a responsabilizar as plataformas, no caso destas permitirem a publicação de conteúdos que não respeitem os direitos de autor. Esta é uma das diferenças mais importantes (não percebo porque é dada em segundo lugar) porque a partir do momento em que as plataformas possam ser responsabilizadas pelos conteúdos que deixarem publicar, sempre que houver a mais pequena dúvida sobre se um conteúdo viola ou não direitos de autor (notem que só na Europa temos 28 leis de direito de autor que permitem ou não fazer coisas diferentes com as obras), a plataforma vai obviamente impedir a publicação desse conteúdo. Não vão certamente arriscar-se a ter de pagar uma indemnização ou ir a tribunal por causa de um conteúdo publicado. A forma como isto é alterado é particularmente grave porque os três governos obrigam os Estados-Membros a considerar que as plataformas passam a realizar um “acto de comunicação ao público”, que obriga a uma autorização prévia dos titulares dos direitos. Esta noção de “acto de comunicação ao público” tem sido muito discutida no caso dos links. Se eu quiser colocar um link neste texto, deverei ser obrigada a pedir autorização aos titulares dos direitos do site desse link? Se um link passar a ser considerado um “acto de comunicação ao público”, então a resposta é sim. Pelo que esta medida não só atinge conteúdos colocados, como pode atingir os próprios links, ao arrepio de decisões anteriores do TJUE.
    • Terceira diferença: o jornalista diz-nos que os três governos “incluíram salvaguardas com as quais pretendem garantir que os utilizadores que colocam o conteúdo online não sejam identificados“. Reparem que é o jornalista a falar, neste parágrafo não há citações, nem aspas. Ou seja, o jornalista olhou para o documento e viu lá salvaguardas. Onde? Não faço ideia. No texto da lei não há referência a isto. Há, de facto, uma referência nos considerandos (explicações/justificações da lei) que diz que estas medidas “should not require the revelation of the identity of uploaders“. Mesmo que este ponto fizesse lei (e eu não tenho a certeza que faça), há que perguntar: e se essas medidas revelarem a identidade do utilizador, o que acontece às plataformas? Nada. Não há penas, nem coimas, nem castigos, nem a obrigação de implementar um sistema que garanta isto. Se não há nada disto, onde é que estão as salvaguardas?
  3. Por último, gostaria de dizer que nós precisamos de jornalistas e jornalismo. Uma das razões tem a ver com o facto de ser muito difícil (para nós cidadãos e até para as associações) conseguirmos falar com os nossos responsáveis políticos. Mas os jornalistas conseguem e portanto podem fazer perguntas e contra-perguntas que nos dêem as respostas que precisamos. Nesta notícia, o jornalista contactou, e bem, o Ministério da Cultura. Infelizmente, parece que o jornalista não fez contra-perguntas e se limitou a transcrever partes do que o Ministério da Cultura disse, sem questionar o que foi dito. Mas há questões:
    • O jornalista diz que o Ministério disse que a posição Portuguesa “foi estabelecida depois de uma consulta pública, aberta a todos os indivíduos e organizações que se quisessem pronunciar”, dando a entender que o Ministério apenas está a defender aquilo que os cidadãos Portugueses disseram querer. Vocês ouviram falar da consulta pública? Eu por acaso ouvi, mas deixem-me contar-vos o que foi esta “consulta pública”. Algumas associações de defesa dos direitos digitais dos utilizadores souberam desta “consulta pública” porque enviaram emails para o GEPAC (do Ministério da Cultura), em Outubro do ano passado, a perguntar se ía haver uma consulta pública (uma vez que sabíamos que outros países estavam a fazê-lo). Disseram-nos que sim, que ía ser colocada no site do GEPAC (nós que procurássemos no site, se quiséssemos), e que duraria um mês. Portanto, durante meses tivemos de ir ao site de vez em quando pesquisar se a “consulta pública” lá estava. Sim, em pleno séc. XXI, a Administração Pública nunca ouviu falar de um RSS ou de notificações automáticas. Por outro lado, também nunca se ouviu falar desta consulta pública, publicamente. Notem que nem na secção de notícias do próprio site GEPAC está anunciada! No dia 11 de Fevereiro, notámos que a consulta estava no site, o prazo para contribuições era 17 de Fevereiro. Não vi divulgação, não vi o Ministério da Cultura (MC), nem o GEPAC, trazerem o assunto à discussão pública, organizando um evento onde se pudessem discutir os vários lados, para que os cidadãos pudessem depois ter uma base para dar a sua opinião, nem sequer vi isto nos órgãos de comunicação social. Acresce a isto que uma consulta pública deve conter perguntas dirigidas a todas as pessoas afectadas pela matéria em discussão. A consulta do Ministério da Cultura continha perguntas totalmente enviesadas, que apenas consideravam os interesses das entidades que representam os titulares dos direitos, deixando de fora professores, investigadores, alunos, bibliotecas, universidades, centros de investigação, empresas tecnológicas, e utilizadores da Internet, sendo estes últimos a grande maioria dos interessados. Todas estas pessoas e entidades vão ser gravemente afectadas por esta reforma, mas a consulta não tinha perguntas sobre os seus interesses. Deixo aqui as perguntas da consulta pública do MC sobre “o pacote Legislativo Direito de Autor e Direitos Conexos no Mercado Único Digital“, para que possam avaliar por vós mesmos (negrito meu):
        • Acautelam devidamente os interesses dos detentores de direitos que operam em Portugal?
        • Estão alinhadas com as prioridades dessa entidade?
        • Representam vantagens/oportunidades do ponto de vista da sua estratégia? Se sim, especifique, por favor.
        • Que aspetos negativos lhes aponta?
        • Em que medida pode ser melhorada? Em caso afirmativo, por favor fundamente as alterações a propor.
        • Se adotadas, suporá a sua execução a afetação adicional de recursos humanos ou financeiros?
        • Consegue quantificar os impactos positivos e/ou negativos na sua atividade ou nos interesses que representa? E na globalidade destes sectores da economia, sociedade e cultura portuguesas?
    • Quando o Ministério da Cultura responde ao jornalista mencionando uma consulta pública, eu esperaria que o jornalista, se não soubesse da consulta, perguntasse que tipo de divulgação foi feita, que tipo de entidades responderam, por percentagem, qual a percentagem de indivíduos que responderam (o número de entidades o ministério disse terem sido mais de 60), e porque não está mencionada nas notícias do site. Se o jornalista tinha conhecimento da consulta, eu esperaria que perguntasse se o Ministério considera equilibrado para os interesses de todos basear a sua posição numa consulta que praticamente só tinha perguntas sobre os interesses de uma das várias partes.
    • Quase no final da notícia, o Ministério da Cultura diz ainda que esta medida não se aplica a serviços de armazenamento na nuvem e dá exemplos como a Dropbox, iCloud e Drive. Eu precisava que o jornalista perguntasse ao Ministério da Cultura como é que este pode garantir que esta medida não se aplica a estes serviços, tendo em conta que uma das Comissões do Parlamento Europeu decidiu clarificar este ponto, afirmando que sim, que se deve aplicar e que os serviços que o MC deu como exemplo, apesar de serem conhecidos como serviços de armazenamento, permitem que os utilizadores possam, a qualquer altura, partilhar os conteúdos com outras pessoas, assim como disponibilizar esses conteúdos publicamente.
    • Por último, o Ministério da Cultura diz que a medida, para além de não se aplicar a a comunicações privadas, “também não se aplica a actos de partilha de informação e de comunicação realizados privadamente.” E aqui eu precisava mesmo que o jornalista perguntasse ao Ministério da Cultura o que é que isto significa exactamente, que desse exemplos e dissesse qual é a excepção no Código de Direito de Autor e Direitos Conexos Português que permita aos cidadãos realizar “actos de partilha privadamente”. Porque eu estou a olhar para as excepções que temos e não vejo nenhuma que permita isto. E esta ideia tem sido veiculada e insinuada várias vezes, inclusive nas discussões sobre a taxa da cópia privada e por vários políticos, sempre confundido sobre o que se está a falar.

 

Resumindo: não, o GovPT não defende a remoção de conteúdos que não respeitem os direitos de autor. Até porque a lei já obriga a isto. O que o nosso governo defende é que tudo o que quisermos publicar na Internet seja verificado antes e só seja publicado se passar nessa verificação. 

Esta e outras medidas também assustadoras estão a ser discutidas no Parlamento Europeu. Mas o papel dos governos no Conselho Europeu e junto da Comissão Europeia é extraordinariamente importante. Se queremos continuar a ter liberdade de expressão na Internet, temos de pedir ao Governo Português (Twitter: @govpt) e ao Ministério da Cultura (Twitter: @cultura_pt) que expliquem muito bem o que estão a defender e a aprovar. 

 

Dia do #SoftwareLivre no #TechDays em Aveiro – Reservem a data 14 Outubro

A ANSOL celebra este ano o dia do Software Livre, com a Comunidade DrupalPT, no Sábado, 14 de Outubro em Aveiro.

Estaremos durante a manhã no Auditório Amorim, onde irá decorrer um debate VIP, com convidados de diferentes setores da atividade, incluindo o setor Público, e se irá analisar as oportunidades inerentes à utilização de Software Livre nas instituições públicas.

À tarde, no Auditório Principal, e em conjunto com a comunidade Portuguesa de Drupal, começaremos com uma apresentação de Marcos Marado, presidente da ANSOL, sobre a ANSOL, o Software Livre, e a importância das comunidades de software livre. No mesmo auditório, a tarde prosseguirá com apresentações preparadas pela comunidade Drupal.

Mais info e mapa no site da ANSOL. Encontramo-nos lá? 🙂

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Se o dinheiro é público, o código tem de ser público! #PublicCode #SignTheLetter

As entidades que constituem a administração pública têm, muitas vezes, de desenvolver software: um website, uma plataforma, uma aplicação, etc. O desenvolvimento desse software é pago com dinheiro público, dinheiro dos impostos de todos nós.

O problema é que a administração pública permite que esse software tenha uma licença de software proprietário.

O que é que isto significa?

Esse software, que foi pago por todos nós, não pode ser reutilizado, nem verificado.

Mas se uma entidade pública licenciar o código do software que desenvolve com uma licença de software livre ou de código aberto, então qualquer outra entidade pode reutilizar esse código, para prestar serviços similares, poupando dinheiro, trabalho e tempo, uma vez que não é preciso estar a desenvolver novo código: reutiliza-se o que já existe!

Para além disto, é possível a qualquer pessoa ver o código desse software para verificar que o software não está a fazer nada que não deva fazer: que não está a enviar informação sobre o que têm no vosso computador para quem não deve enviar, que não tem backdoors, que possam servir de entrada a um ataque, etc.

Assim, a Free Software Foundation Europe (FSFe) criou uma carta aberta, a ser enviada aos representantes Europeus, para pedir a criação de legislação, que determine que o software financiado com dinheiro público e desenvolvido para o sector público tenha de ser disponibilizado com uma licença de software livre e de código aberto.

A carta já foi assinada por 80 organizações (incluindo as Portuguesas Associação Ensino Livre, a Associação Nacional para o Software Livre e a Associação D3 – Defesa dos Direitos Digitais). Assinem e enviem para os vossos contactos!

A lista de assinaturas que permite comentários tem vários bastante interessantes, que mostram bem como os cidadãos consideram esta medida óbvia e até que já devia estar implementada. Vale a pena percorrer os comentários aqui.

Para explicar melhor o que está em causa, a FSFe criou um vídeo, que deixo aqui:

Alteração à tabela da #PL118 pelo @cultura_pt @govpt

 

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Foto por Pexels CC0 Creative Commons

Já na discussão sobre a compensação da cópia privada, a VISAPRESS, entidade de gestão colectiva que representa os editores de notícias, fez saber, numa audição no Parlamento Português (ver o vídeo no final desta página entre o minuto 12 e 14), que os editores de notícias também deveriam ter direito a uma fatia da taxa da cópia privada.

Em resposta a uma pergunta do então sr. deputado Michel Seufert, o representante da VISAPRESS justificava o direito a tal fatia por as pessoas partilharem notícias umas com as outras:

“(…) Eu para mim, é uma coisa frequentíssima chegar a um sítio e as pessoas mostrarem-me um recorte de um jornal que receberam de não sei quem, que emprestou a não sei quem e que está lá, marcado, quem é a empresa que fez, etc. (…)”

Contextualizando, para clarificar:

Qualquer empresa, entidade, ou pessoa pode contratar o serviço de uma empresa de clipping, para recolher todas as notícias sobre um determinado assunto (tipo Google Alerts, mas pago). Mas para prestarem este serviço, as empresas de clipping precisam de uma autorização dos titulares dos direitos das notícias, ou seus representantes, como a VISAPRESS. Assim, as empresas de clipping contactam a VISAPRESS, que emite uma licença, que as empresas de clipping pagam para depois fazer a recolha de notícias e enviarem para as empresas, entidades ou pessoas que contrataram e pagaram o serviço.

Quando o clipping chega às empresas ou entidades que subscreveram o serviço é distribuído por pessoas, que têm direito a receber esse clipping. Na audição parlamentar, o sr. da VISAPRESS queixava-se que essas pessoas partilham essas notícias (que têm direito a receber) com pessoas que não fazem parte da empresa ou entidade que recebeu o clipping e, que portanto não têm o direito de aceder as essas notícias. Como não é possível saber quantas estas partilhas são, diz a VISAPRESS que não as pode incluir no preço da licença que vende às empresas de clipping. Por causa, disto, a VISAPRESS foi ao Parlamento defender que deveria ter direito a uma fatia da taxa da cópia privada para compensar essas tais partilhas, cuja quantidade não se sabe.

Na altura, a VISAPRESS não teve direito a uma parte da taxa da cópia privada. E muito justamente. Porque a queixa da VISAPRESS não dizia respeito à cópia privada. A VISAPRESS queixou-se da partilha de ficheiros sem fins comerciais, ou seja, queixou-se da pirataria de notícias. Uma cópia só é privada se for feita para fins exclusivamente privados, segundo a lei, logo só a pessoa que fez a cópia é que pode usar a cópia, mais ninguém pode usar aquela cópia. Ora, a notícia recebida “de não sei quem, que emprestou a não sei quem” não é uma cópia privada. Se não é uma cópia privada e não está incluída em mais nenhuma excepção ao direito de autor (utilizações livres), então só pode ser pirataria.

Se o Governo queria dar dinheiro aos órgãos de comunicação social por conta da tal partilha de notícias, deveria ter criado uma proposta de lei que alargasse a definição de cópia privada à partilha de ficheiros sem fins comerciais, legalizando essa tal partilha das notícias de que a VISAPRESS se queixou no Parlamento.

Mas nada disto foi feito.

O Ministério da Cultura fez saber hoje que alterou a designação dos equipamentos na tabela da compensação da cópia privada, substituindo as descrições referentes a equipamentos de áudio e vídeo, para descrições mais generalistas de “conteúdos e dados” de forma a que a VISAPRESS possa passar a receber a tal fatia da taxa.

Ou seja:

O Ministério da Cultura fez saber hoje que uma parte da compensação que pagamos por conta da cópia privada vai servir para compensar a pirataria de notícias de que se queixou a VISAPRESS, e que vai continuar a ser pirataria.

As pessoas continuam a não poder partilhar notícias inteiras e, portanto, uma parte da taxa que pagamos vai compensar uma acção que não podemos fazer.

Como se isto não fosse suficientemente mau, o Ministério da Cultura ainda fez saber através de comunicado oficial [PDF] que o Governo Português defende o artigo 11º da proposta de Reforma do Direito de Autor da Comissão Europeia, que estipula a criação de um novo direito conexo a ser dado aos editores de notícias.

Se esta proposta Europeia for aprovada, passamos também a não poder partilhar sequer excertos de notícias, a menos que seja paga uma nova taxa, que provavelmente será gerida pela VISAPRESS.

Um obrigada à D3 – Defesa dos Direitos Digitais, que encontrou o comunicado oficial.