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Editado: o i é um jornal português de âmbito nacional recente

É verdade que não gosto do i, mas uma vez que me apercebi que estavam com problemas e levava dois minutos a esclarecer, decidi fazê-lo.

O que se passa é que o serviço de short URL que o i utiliza não está a funcionar http://ow.ly/, fazendo com que os leitores do twitter do i não consigam aceder aos links que eles disponibilizam.

O problema do i é o problema de todas as pessoas/instituições/empresas que decidem lacrar a sua informação e dados em formatos dos quais não têm qualquer controlo. É o problema do DRM, é o problema dos formatos proprietários e fechados. É o problema das pessoas que lacram ou deixam lacrar a sua informação sem ficarem com a chave.

Pelos vistos, outras pessoas já se queixaram do mesmo e com o mesmo serviço ow.ly.

Assim que me apercebi do problema expliquei aos srs do i, via Twitter. Continuaram a usar o serviço.

Depois, indiquei um addon para o Firefox, a algumas pessoas que estavam com problemas, que permite desfazer esta asneira dos short URLs: http://www.longurlplease.com. O i disse, via Twitter, que o problema já estava resolvido, embora não o conseguissem explicar.

Sugeri-lhes que lessem os replies que lhes fazem. E que não, não está resolvido. Neste momento em que escrevo os links em formato http://ow.ly não funcionam. Apenas as pessoas que usam Firefox com o tal addon conseguem aceder aos links do i, via Twitter.

Depois disto tudo, o i continua a colocar os seus links no formato http://ow.ly, que não funcionam.

Sinto-me num diálogo de surdos. Que mais pode uma pessoa fazer? Para a próxima fico quieta. Eu nem gosto do i…

Eu ainda pensei que a crónica do Paulo Querido, no Expresso, falasse do “julgamento da década”, numa área de tecnologia que hoje se configura como prioridade de Governos (influenciados ou não por grandes empresas), mas os critérios do Paulo ditaram-lhe que ele deveria falar do caso da semana.

Há algumas coisas com as quais eu não concordo nesta crónica. Um delas é que os jornalistas devam “maquilhar e compor”. Suponho que o Paulo defenda o “devem”, porque na crónica é dito que só não filtraria, o jornalista que se quisesse armar em esperto ou o jornalista que fosse de um outro partido contrário. Suponho ainda que o Paulo considere sinónimos “maquilhar”, “compor”, “mediar”, “filtrar”.

É certo que o jornalista deve filtrar e mediar, mas nunca “maquilhar” ou “compor”. Se tem interesse público, noticia-se, se não tem, deixa-se cair.

Vou dar-vos um exemplo de uma notícia que em determinadas circunstâncias deve ser noticiada e noutras não deve.

Numa aula de jornalismo, foi-nos dado o exemplo de uma notícia sobre o caso de um político com responsabilidades pela nação que tinha uma filha ilegítima e a questão era se a notícia deveria ou não ter vindo a público pelo jornalista.

Se nada mais fosse dito, obviamente, a notícia não deveria ser publicada. Os políticos têm direito à sua vida privada e os jornalistas precisam de traçar limites, filtrando o que tem interesse público do que não tem.

Acontece que o político em causa defendia acérrima e publicamente os “valores da família”, condenando as relações extra-conjugais, etc. Ora, um político não pode defender algo publicamente e depois agir de forma completamente contrária, pelo que neste contexto faz todo o sentido e é do interesse público que a notícia fosse publicada.

Ao ler a crónica do Paulo Querido fiquei com esta sensação de haver uma espécie de acordo entre políticos e jornalistas, que faz os primeiros sentirem-se à vontade para falar com os segundos, como se estes fossem companheiros de copos.

Eu já não acredito nos políticos, mas ainda quero acreditar nos jornalistas (apesar do que vou vendo por aí). Por isso não concordo com a perspectiva do Paulo, quando ele parece afirmar que um político pode dizer algo aos jornalistas, que não pode dizer no twitter, por aqui não haver jornalistas  “a mediarem, maquilharem, comporem.”

Concordo com o Paulo, quando ele fala em mudança de paradigma, mas parece-me a mim, e isto é meramente uma opinião daquilo que vou observando, que na web, as pessoas sabem que é público, mas não têm a noção do público.

Na web, não vemos o público constantemente, não vemos as pessoas que nos interpelam, não sabemos quem nos lê, não estamos num anfiteatro em frente a uma audiência e não estamos à frente de meia-dúzia de jornalistas que nos fazem perguntas.

É por isso que na web, principalmente em serviços mais ou menos utilizados de forma contínua, como o twitter é muito fácil, apesar de sabermos que é público, esquecermo-nos desse público. Afinal, ninguém consegue estar sempre a fingir.

Vou dar-vos outro exemplo que aconteceu aqui há tempos. Estou inscrita em várias mailling-lists que recebo no email. Algumas públicas, outras privadas. Numa das públicas, alguém resolveu fazer um post num blog sobre uma discussão que se estava a ter, citando um dos intervenientes devidamente e comentando.

Houve um pequeno escândalo na lista, que não era aceitável que se levasse para a blogoesfera o que era discutido na lista e que era caso de invasão de privacidade e etc. Eu não conhecia nenhum dos intervenientes e suponho até que nem conhecia ninguém nessa lista, mas a certa altura vi-me obrigada a chamar a atenção para o facto de aquela lista estar pública e por isso qualquer pessoa que nem sequer estivesse inscrita na lista poderia ver e consultar a lista.

Não acredito que haja políticos que digam coisas aos jornalistas que não queiram que se saiba, mas já considero a hipótese de haver políticos que digam coisas em serviços como o twitter, que não diriam perante um público, precisamente porque me parece que a noção de que temos um público se desvanece e não porque não haja jornalistas a “maquilharem”.

Entra-se com um login e uma password, vemos os que as pessoas escrevem, escrevemos, cria-se uma comunidade, somos todos amigos, fazemos uns encontros e esquecemo-nos que não sabemos quem nos lê, que temos um público que não estamos sempre a ver.

É claro que aquelas pessoas que precisam de construir uma imagem perante o público, devem pensar duas vezes antes de usar este tipo de serviço, e três sempre que o usam.

Editado: eu sei, eu sei, ando muito preguiçosa com os links. Deixo-vos o link para o Remixtures, que é precisamente a excepção em que eu estava a pensar quando escrevi este post. Não vale a pena linkar para um post em particular porque se querem acompanhar o julgamento em português, o Remixtures é o melhor blog para o fazerem :-)

Já agora aproveitem para ver os outros posts relacionados com a indústria discográfica, para perceberem o que está em jogo.

Editado: Links para o assunto:

O Torrentfreak tem vários posts por cada dia do julgamento

No Guardian

Hashtag no twitter com o julgamento a ser trduzido pata inglês em tempo real

No Times

No The Pirate Bay

Funny: The King Kong Defense in Wikipedia

Isto afigura-se-me estranho. Reparem: o Guardian dá a notícia, a BBC dá a notícia, o New York Times dá a notícia, o IHT dá a notícia, o Times dá a notícia. Chama-lhe o julgamento da década nesta matéria.

Em Portugal, os chamados jornais de referência calam-se. Excepto numa ou outra revista especializada não vi referências a esta notícia.

Dá um programa na televisão portuguesa, arranja-se uma hashtag no twitter, gera-se uma discussão. Fazem-se conferências no twitter e fala-se em caso de estudo. Alguém coloca um comentário ofensivo no twitter e um jornal de referência gasta recursos para obter a informação que toda a gente já sabia. Um político cria uma conta no twitter e toda a gente fala da inovação.

Está a ser difundido pela primeira vez pelo twitter o julgamento “da década” nesta matéria e os media calam-se. Mais, os bloggers, os twitters, etc, também não falam, salvo uma ou outra excepção. Lembram-se da rádio? O jornal explica, a televisão mostra e a rádio chega primeiro?

Hey, as pessoas em todo o mundo podem acompanhar um julgamento, em tempo real! Hey, um dos réus escreve no twitter directamente do banco dos réus!

Será que as pessoas têm medo de ao falarem sobre o julgamento do The Pirate Bay podem ser connotadas com “piratas”?

Será que em termos de tecnologia isto não é assim tão novo? É normal os julgamentos serem difundidos (perguntas e respostas) via twitter ou qualquer outra tecnologia em tempo real?

Esqueçamos a tecnologia, será que o tema não é actual, nem pertinente e por isso não tem interesse jornalístico?

Será que eu ando a ler os jornais errados? Ou mudaram os critérios de noticia?

Será que Estocolmo está demasiado longe?

Mais de trinta anos após o 25 de Abril os congressos partidários estão hoje totalmente “fechados” em matéria de liberdade de circulação de jornalistas durante os trabalhos. O Bloco de Esquerda, que nesta VI Convenção teve o primeiro cheirinho de profissionalização – com estrado para as televisões e boas instalações -, continua a ser a única excepção a esta regra. A imprensa circulou por onde quis e falou com quem quis. Os trabalhos não saíram prejudicados e a direcção viu o seu peso interno sair reforçado.

In Diário de Notícias (Negrito meu)

Não pode ser a comunicação social a seleccionar aquilo que transmite. – Manuela Ferreira Leite, in Público