Daily Archives: April 28th, 2008

Tenho de voltar à revista Ler e à entrevista ao António Lobo Antunes para vos falar do amor aos livros:

Carlos Vaz Marques: O que é requer de uma editora?
António Lobo Antunes: O mesmo amor que eu pelos livros. Que este amor seja partilhado. Por exemplo, tinha a ideia de fazer uma colecção para pôr as pessoas a lerem livros.

CVM: Foram publicados dois até agora.
ALA: Sim, saíram dois e não vai sair mais nenhum.

CVM:Porquê?
ALA: Não posso conceber que no fim do livro do Tolstoi venha propaganda aos livros que lá estão. Não o posso conceber. Tolstoi não pode ter ninguém ao pé. Pediram-me um pequeno prefácio.
(…)
O Livro é tão complexo e tão rico. Falava lá, pela rama, no Lukács, que negava que fosse um livro sobre a morte, etc., por aí fora. Contracapa do livro: “Este livro aborda o tema da morte” Dá vontade de não escrever mais para aquilo, não é? Quer dizer, não têm o direito de fazer isto ao Tolstoi. Primeiro, os livros não abordam nada, porque não são corsários. E, segundo, não é de facto um livro sobre a morte.
(…)
Fiquei revoltado com isto tudo
(…)

Na revista Ler de Maio de 2008, já disponível nos quiosques.
(Bolas! Já a li quase toda, várias vezes, e agora só para o mês que vem!)

O livro a que António Lobo Antunes se refere (magnífico, por sinal):

Tolstoi book

No site do Tellico, podem ver quais as alternativas que há a esta aplicação, o que não deixa de ser agradável ou sinónimo de uma segurança de como a aplicação é boa.

O Tellico permite organizar livros, bibliografia, BD, vídeo, música, moedas, selos, vinho, …… <- insira aqui o que quiser porque pode mesmo criar uma colecção inteiramente nova ou editar todos os campos das que tem by default.

Além de tudo isto, é open-source, o que significa que proliferam scripts e plugins consoante as necessidades dos utilizadores.

Uma das questões nestas coisas é conseguir que o Tellico encontre na internet e automaticamente informação sobre o livro português que eu comprei ou que eu li e que não está na Amazon ou nos outros serviços onde se pode escolher procurar.

Como não sei programar, pedi ao Marcos que quando tivesse um tempinho me pudesse fazer um script ou plugin que reconhecesse os isbn de livros portugueses.

Não há plugin, nem script, mas enquanto fiz o jantar, o Marcos conseguiu encontrar a informação do Porbase necessária à pesquisa. Assim, basta fazerem, no Tellico, settings -> configures tellico -> data sources -> new e inserirem a informação da figura abaixo.

Obrigada, Marcos!

porbase

Às vezes leio posts passados e só então reparo nas gralhas e em alguns erros pouco abonatórios de uma escrita. Às vezes, ao ler os posts novamente, as palavras não me parecem bem e tenho de confirmar se são escritas mesmo assim:

Um livro não se desfolha, a não ser que lhe queiramos retirar as folhas (argh!). Um livro folheia-se, ou se for de forma inconsciente, esfolheia-se.

Dúvidas retiradas no Priberam.

Depois de algum tempo, a Ler volta às bancas, com periodicidade mensal. Este número é delicioso. Já dei por mim a ler várias vezes os mesmos artigos.

Um dos que mais me impressionou foi a entrevista ao António Lobo Antunes. Tenho uma relação estranha com este escritor: nunca li nenhum livro dele, mas leio sempre as (poucas) entrevistas que dá e tenho até o livro que devorei “Conversas com António Lobo Antunes”, da directora do Babelia do El Pais.

Deixo-vos apenas uma das perguntas e resposta:

Carlos Vaz marques: Nos últimos anos tem havido uma enorme vaga de popularidade em torno do romance histórico: tira alguma conclusão disso?

António Lobo Antunes: Não é um fenómeno dos últimos anos, isso sempre existiu. Todo o romance é histórico. Aí entramos em terreno pantanoso, que é o terreno da não-literatura. As pessoas compram isso da mesma maneira que vêem novelas. Não exige uma atitude activa do leitor. Estamos ali a receber aquilo passivamente. Mas isso sempre existiu. Sempre há-de existir. Não faz mal a ninguém. Enquanto lêem aquilo não se drogam. Já não é mau. Agora, fazer livros é uma coisa, ser escritor é outra. Quando algumas das pessoas que fazem esses livros dizem “Pus os portugueses a ler”…

(destaque meu)

No geral, fiquei muito impressionada com toda a revista. Não há tempo, nem espaço para vos falar de tudo: corram ao quiosque mais próximo e comprem-na. Acreditem que vale bem os cinco euros.

É verdade. Nota-se o aparecimento de novos grupos.Ainda não se confirma, se seitas, religiões ou meramente grupos políticos ou sociais. O certo é que se começam agora a desenvolver. O objectivo de um destes grupos é deixar de fazer celebrações e apoiar-se na máxima:

São coisas que não aconteceram no nosso tempo, sabemos o que são, mas não vemos razão para comemorarmos. That’s all!

Quando a mãe diz filho que a avó faz anos, aquele responde que não lhe dará os parabéns, nem celebrará o dia, uma vez que a avó não nasceu no seu tempo. Qualquer acontecimento histórico deixará de ser celebrado (a não ser que ocorra no seu tempo, o que quer que este seu tempo signifique). Também não celebram o Natal ou qualquer outra festividade perdida na memória do tempo. Aliás, pretendem acabar com a memória: não lhe vêem utilidade. No seu percurso escolar recusar-se-ão a estudar qualquer fenómeno cuja existência seja anterior ao seu nascimento: odeiam electricidade e adoram iPod’s.

Não faltará muito tempo até estas pessoas irem para a rua com cartazes a dizer “Abaixo o aniversário da Avó”

Por isso, caro leitor, se começar a sentir que há pessoas que parecem esquecer-se do seu aniversário, não fique triste e indague se não serão mais novas.

Depois há outro grupo, que parece sentir alguma raiva a marcos históricos como o 25 de Abril: estes parecem pensar que antes não havia tachos, nem diferenças económicas entre as pessoas. Supõe-se que este seja um subgrupo do anterior, dado que não lhes parece passar pela cabeça que havia um lápis azul prontinho a desenhar um país idílico. Ou isso, ou acham mesmo sinceramente que ainda assim, seria preferível ter uma guerra onde os irmãos perecessem ou não pudessem ter conhecimento ou preferissem que os levantassem de noite da cama, porque alguém disse que eles falaram mal do regime.

Há ainda um terceiro grupo que celebra o 25 de Abril, mas faz notar sempre a importância do outro 25, o de Novembro (que quase parece ter mais importância). Acreditam realmente que se o tal 25 de Novembro tivesse sido bem sucedido, em Dezembro seguinte, Portugal teria uma ditadura comunista, igualzinha à da Rússia. Não. Mais. Melhor. Ou pior, como o leitor preferir.

Num país conhecido por atrasos temporais nas construções, derrapagens de orçamentos, política do deixa andar, estas pessoas acreditam mesmo que se tivesse sucedido este outro 25, em menos de uma semana seríamos uma Rússia! Não deixa de ser curioso que esta facção critique com toda a força da sua raiva o partido comunista e que eu, há pouco tempo, a folhear um livro de história me tenha deparado com a asserção que este 25 de Novembro só não foi avante por não ter o apoio incondicional daquele partido.

O melhor mesmo é voltarmos todos a abrir os livros da História: e é aproveitar enquanto podemos.