O Correio da Manhã lançou uma colecção de livros sobre os anos de Salazar, cuja publicidade é “Nem bom, nem mau, incontornável”. A História não é neutra porque os acontecimentos não foram neutros. E há que falar das coisas e chamar as coisas pelos nomes, para não incorrermos no grave erro de modificarmos o que realmente aconteceu.
Não estamos a falar de um período da História em que haja dúvidas, mal documentada ou em que não hajam testemunhas vivas que podem provar como as coisas se passaram. É por isso que esta publicidade é intragável.
Antes de me aperceber desta publicidade, deparei-me com outra colecção que me causou o mesmo espanto: os Cadernos Biográficos do Público, onde se pode ler na pág. 9 do segundo volume:
O projecto traça a biografia de 16 personalidades portuguesas marcantes do séc. XX, em áreas tão diferentes como as artes plásticas, a música, a literatura, a política ou o espectáculo.
Primeiro ponto de espanto: estas áreas não parecem assim tão diferentes, podem algomerar-se em duas, artes e política. Não estando outras áreas incluídas, como a economia, medicina, etc, parece ter sido incluído à força o caderno sobre Salazar e Marcello Caetano (únicos da área política).
Continuemos:
O denominador comum a estas personagens é a sua marca distintiva de originalidade. Alguns deles foram reconhecidos em vida pelo seu mérito, outros incompreendidos e injustiçados, mesmo marginalizados.
Segundo ponto de espanto: Salazar teve mérito e foi reconhecido em vida? Ou foi um incompreendido coitadinho?
Adiante:
Numa época de carência de auto-estima nacional, em que muito se elegem ídolos medíocres e vazios de ideias, é importante relembrar estes 16 exemplos de portugueses, homens e mulheres, que ousaram cumprir o potencial com que nasceram.
Terceiro ponto de espanto: Salazar é um exemplo para aumentar a auto-estima nacional? A censura de opiniões diferentes, a falta de liberdade, a prisão, a tortura, a fome, a guerra são exemplos que ao serem recordados aumentam a auto-estima nacional?
É péssima a publicidade do Correio da Manhã, pior se considerarmos que o público daquele jornal não tem espírito crítico. A do Público não é melhor. Como é que é dada a responsabilidade de descrever colecções desta maneira a alguém que escreve isto?